domingo, 23 de maio de 2021
Prólogo pra uns, prelúdio pra ou-tros
Soando ruídos metálicos, homens de amplas espáduas, à foice afiada decepam, em golpes de ritmo incerto e altissonantes, os caules de gramíneas cujos grãos não se prestam a nenhuma empresa econômica, porque não alimentam ninguém, exceto avezinhas de cores variadas, algumas canoras, cujos cantos se avo-lumam aos piados de outras e a muitos outros ruídos: estaladas metálicas, ventos sibilantes, quedas e espir-ros aquosos, estampidos corpóreos, fragores vocais (mugidos, roncados, rosnados e choros e gritos) e de outras matérias indefinidas, cujos objetos, com a vio-lência implacável do ímpeto ou com a doçura afetuo-sa do afago, ou ambas, atritam-se em prantos, per-turbando o ar circundante com ondas de choque au-díveis de perto e de longe, que adensam a atmosfera com miasmas de odor verde amaríssimo, que se mis-turam a outros vapores lúgubres e negros e úmidos, ora olorosos, ora inodoros, ora catinguentos e sempre coléricos. E sob um sol que ainda parteja, já escaldan-te, por trás de uns montes nem tão altos, porém ver-dejantes, em meio ao arrebol multicolorido da alvo-rada de nitidez brumada, tudo isso revela, numa si-nestesia agonística, que o dia começa, sem se saber quando termina, muito cedo – fiat lux!
Aos esturros, ceifam-se as plantas, os caules amputados de suas raízes, as quais ninguém, tal como os grãos, come. E se não alimentam, por plantas tais ninguém nunca daria moeda alguma, tampouco enfia-ria (eis a sagrada conceição de um novo mundo, ain-da mais maculado do que os antecessores) o pau das suas mudas nas bainhas arreganhadas no negrume do solo opimo que sempre cobriu todos os morrinhos, nem muito tempo fazia, pisado por sábios hominí-deos autóctones e brasis que ainda o pisam, hoje im-potentes, hoje diluídos, hoje vestidos, então despidos de quase tudo, coberto por vegetação virginal e ar-bustiva e de indivíduos ainda mais troncudos – mui-tos, muito mais frondosos – um deles um fabáceo, cujos bagos não se comem, mas de cujo sagrado ma-deiro, após esfolamentos e depois triturações, extra-tou-se brasilina, pigmento da cor do sangue, que, por mais vermelho que seja, não colore o sangue do corpo quando esse, em fluxo furibundo, esgarça os capilares oculares e deixa as escleras vermelhas que nem brasa; da cor de sangue que colore de pavilhões nacionais (exceto alguns), as listras de variadas espessuras e de cores brasis, que nem hemoglobina, pigmento, de fato sanguíneo, que avermelha o sangue, que mancha em disformes manchas de matizes brasis a pele (mesmo as vermelhas), quando a pele é rasgada, às vezes por ferro afiado e contundente, às vezes por ferro incandescente, até o tecido conjuntivo que sub-jaz à pele, cheio de vasos difusores, refletindo con-trastes sanguíneos de várias intensidades, que de-pendem primeiramente das condições fotográficas, do trabalho das glândulas sudoríparas e sebáceas e, principalmente, da cor da epiderme.
Mas essa planta, a gramínea, tinha e ainda tem uns caules que se espicham ao sugarem a água da ter-ra nutriz, transmutando-se em altíssimas varas cau-dalosas, que depois de decepadas e carregadas em lombos ora humanos, ora desumanos, eram tritura-das estrepitosamente, e esguichavam, e ainda esgui-cham, um caldo dulcíssimo, que se entornado em cal-deiras ígneas, aplicando-se-lhes fogos infernais, en-trava em ebulição cachoante e encorpava e se torna-va, e ainda se torna, um melado mais doce ainda, muito menos aquoso e muito mais pegajoso, que de-pois foi purgado, esfriou e endureceu, que nem um gnaisse âmbar escuro em forma de pão-de-açúcar. Então, destroçado a marretadas por homens parrudos (os mesmos), o que antes fora garapa e passou por tijolo, torna-se um pó um tantinho cristalizado, mas nem tão áspero assim, nem assim tão granulado, marrom, às vezes um marrom de aspecto herbáceo, que adoça a vida amaríssima, que açucara a vida acér-rima, e em nome do qual se derramou muito sangue brasil, de várias cores, mais de algumas (homens que sabem que sabem que História é história), em varia-das expedições, campanhas militares, razias e con-tendas violentas de definições menos precisas e em funestas viagens transatlânticas, todas mais ou me-nos sanguinolentas, que tiraram vidas de vários tons, de uns muito mais, aqui e alhures, mas não tantas vidas quanto as que tirava (do verbo em forma infini-tiva tirar) ano a ano, durante muitos (por volta de umas centenas), a empresa econômica que consistia de outros e daqueles processos de que se falou há pouco, descrita aqui em forma sintética, ou como ex-pressaram (outros) em lindas canções analíticas, me-lífluas e viscosas que nem o mel escuro, que gruda nos órgãos auriculares (os internos) e de precisão precária, porém mais bem-apessoada em termos es-téticos, afinal eram as suas intenções, melódicas.
E assim, depois de algum tempo – portanto, neste tempo – chegou um menininho mirrado e ainda lactante, órfão de mãe, órfão de pai (um mameluco ou um janízaro, que já morreu), mas nos braços de um comerciante que negociava humanos, dessa vez, com um capitão de milícia, que então os subtraía, com o auxílio da sua milícia composta por primatas armados, que comandava sob auspícios de um terra-tenente preguiçoso, investido de poderes régios, a florestas e savanas e desertos longínquos (às vezes) além do mar, mas em outras ocasiões com atravessa-dores assentados em cidades portuárias, também ne-gociantes de vidas; dessas, algumas eram espólios de guerras, outras, pagamentos de dívidas, outras, nego-ciáveis por desgraçada herança e outras, violentamen-te sequestradas por gente que tinha pele branca, às vezes nem tanto, às vezes nem um pouco e às vezes negra. O menino falaria uma língua semítica, não mosaica, possivelmente filiada a Abraão, o patriarca, que em um adultério, desposando uma cativa, conce-bera um rebento, que ao nascer não chamaram Israel, mas Ismael, que também era o nome do menininho mirrado, que, mamando nas tetas portentosas de uma escravizada, escrava já desde antes de nascer, de pele maura, um pouco, e de olhos glaucos, descenden-te de odalisca de harém – traduziu assim, criativa-mente, Antoine Galland – ama de leite branco, mais branco do que a pele dela mesma e do que a pele de muita gente da história que ora se conta, vinda, ao que parece, dum deserto quente e montanhoso, mas antes de algum oásis saariano ou de um delta de rio ou de um vale inaudito, viera de um desses sua mãe, e comendo, além da lactação, o que davam aos seus (sobras), que nunca tinham sido seus, exceto pelo continente natal, tornou-se depois um negro de espá-duas amplas, nem tão negro assim, dizia-se antes, mas não se diz hoje (na verdade, alguns dizem, sim), capaz, além de muitas outras coisas, de decepar os caules das gramíneas, na altura imediatamente supe-rior ao nó radical da dulcíssima planta, ou membros humanos, desde que lhe providenciassem (ou ele mesmo o fizesse) uma foice de lâmina rutilante.
E em outro tempo, talvez o mesmo, a depender da granulometria da terra de uma ampulheta (caso padeça Vossa Mercê dessas extravagâncias antiqua-das) ou das intermitências dos ponteiros do seu reló-gio ou de uma bula assinada por uma sumidade pon-tifícia, chegou também ao doce e laborioso inferno, nos braços do mesmo traficante, outro menino mir-rado e lactante, apenas órfão de pai, um guerreiro e caçador habilidoso e tenaz, que derrubara logo três facínoras em combate assimétrico com sua azagaia, sendo morto em tocaia por um projétil de mosquete, que se lhe fincou no parietal, não fazia um átimo, que mamou (o lactante, está claro) na mesma escrava, aquela de pele clara e de olhos verdes, o leite branco que, às vezes, lhe caía na pele, escurecendo-a. Daque-le primeiro menino mirrado, esse menino, talvez (is-so é certamente improvável), fosse parente sanguí-neo, embora viesse de alguma paragem ao sul do de-serto quente e montanhoso do outro e das mães de Ismael, de onde os traficantes de humanos, coman-dados por outro capitão de milícia, com as mesmas prerrogativas do de antes, sequestraram-no do seio da sua mãe ainda puérpera (desnaturada!), que fora enviada depois, quem sabe?, ao laborioso paraíso das nuvens de algodão branco mais ao norte (um inferno, em um sul), não sem antes gritar, num claro surto prantoso de histeria, uns gritos incompreensíveis, na direção do elemento miliciano que lhe arrancara a criança do braço, logo depois tomando em resolução (o facínora) que se batizasse o menino, no sentido onomástico apenas, e que lhe trocassem o nome, o qual ignorava. Assim latinizaram ou judaizaram a nominação, naturalmente, a fim de se facilitarem con-tabilidades, i.e. foram às Sagradas Escrituras e depois da leitura coletiva dos Evangelhos de Mateus, de Marcos, de Lucas, de João e de Audebulário, antes de torturar, matar a disparos de mosquete e esquartejar a foice, os homens menos dóceis (doces?) e, para im-plementar uns rituais muito macabros, cativar as ca-beças decapitadas e os pênis emasculados, bem como as mulheres, as crianças e os sobreviventes do povoa-do do menino e dos seus pais, depois deram a boa nova: nome de morto terás, Lázaro. Só para anunciá-lo, o nome do capitão que liderava essa súcia era Messias Não Sei das Quantas. E para completar o milagre da ressureição e garantir que o órfão desma-mado vingasse, deram os peitos portentosos da es-crava Afsaneh ou Khadija (aqui Antoine Galland pro-videncia uma onomástica claramente obscura) ao menino Lázaro, que teve que compartilhar com Isma-el, além da viagem nauseabunda no porão pestilento de um tumbeiro construído de pernambouc, ou de outra madeira nobilíssima, a mãe postiça e depois outras, à medida que dessas se esgotava a produção láctea, ou mesmo devido aos fluxos comerciais cor-respondentes – lembremos, eram todas essas criatu-ras vividas ao sopro divino, bens de capital. E tal co-mo seu irmão de leite Ismael, a quem todas as células do organismo, em tensão citoplasmática, uníssona e tonitruante, a partir de um determinado instante, odiariam e jurariam de morte até o final dos tempos, Lázaro tornou-se um homem capaz... e de espáduas amplas, que um dia, e outros antes, brandiria caviloso uma foice de fio brunido.
Ainda em outro tempo, a depender das con-venções utilizadas, um menino turbulento destronou seu pai, um parricida que matara o pai de hemorragia genital, prendendo-o, o progenitor, em uma monta-nha pedregosa, e salvou do canibalismo paterno, com a ajuda materna, seus irmãos, dentre eles uma irmã, mas não só essa, com quem concebeu numa relação incestuosa uma filha, futuramente raptada e despo-sada pelo tio, irmão de ambos os pais, sendo um de-les o tal menino turbulento, o qual desposou a outra irmã, a dos braços brancos. Nesse ínterim, sobre um leito coberto com mantos de algodão, numa casa muito grande, branquíssima de tinta calcária, nasce-ram dois matricidas gêmeos; a primeira, branca, o segundo, da cor de um tição em brasa, que desde sempre, até o desmame, tomariam leite negro de mu-lheres lactíferas, já que lhes fora interditado o leite materno branco, porém com uma parte preta a cada oito (oficialmente), graças a um parto fatal, que en-charcou de sangue brasil aquele leito tão alvo e matou uma das partes, no caso, a oitavona. Das mulheres leiteiras, a mais profícua era uma filicida, cujo filho sanguíneo prematuro, aberrado congenitamente de-vido à conceição incestuosa (supunham os naturalis-tas mais razoáveis), incapaz de oscular uma mama, morrera de inanição, uns dias depois do nascimento. O nome da negra era Branca. Por sua vez, Helena se-rá o prenome – evitemos, por ora, os sobrenomes, pelo fato de serem muitos, cada um representando um galho de árvore genealógica, exceto os endogâmi-cos e exceto os apócrifos, evidentemente – da irmã do matricida; a esse último nomearam, sob os auspícios de um ritual litúrgico em que se serviu vinho do san-gue e hóstias do corpo de um Messias outrora e até hoje renegado por seus coevos correligionários, Nuno – a questão dos sobrenomes e dos procedimentos litúrgicos é idêntica, diferentemente dele mesmo, no sexo e na cor da pele, à da irmã imediatamente mais velha.
Algum instante depois, portanto, Ismael, Láza-ro, Helena e Nuno, no mesmo dia e nos dias futuros, compartilharam os seios, ambos, da escrava Branca, que, fora hospedada naquela casa grande e caiadíssi-ma, onde, até ali, gente como Branca só ficava se fos-se para servir bolos e tortas, confeitos e compotas, chantilis e merengues, cremes e glacês e infinitos ou-tros acepipes saturados de sacarose a gente branca e de pele branca, mas em algumas ocasiões, a gente com as melaninas, proteína pigmentosa de coloração preta, ativadas por radiações solares, às vezes a gente com as melaninas constituídas por fenotipação con-gênita, nos horários de trabalho, e os próprios corpos, em encontros noturnos, nem todos secretos, nem to-dos literalmente noturnos, ao pai dos matricidas e a boa parte da sua ascendência masculina – alguns brancos da metrópole, cuja ascendência, um dos ra-mos, oriunda de muito antes desse lugar, compunha-se de gente de pele menos alva, morena, que falava uma língua tão semítica, tirando as diferenças diale-tais, quanto a que falará Ismael num dia que não exis-tirá – e a outros comensais quase brancos dos entor-nos, alguns de pele escura, alguns de sangue partici-pado em potenciações diversas por sangue negro ou mesmo vermelho, esse segundo tipo de interação so-cial (malemolente pra uns, malevolente pra outros) contribuindo, vez sim, vez não, para o aumento da prole de várias gerações e de várias cores, mas quase sempre negra, que (alguns dela) habitava o prédio anexo à casa das máquinas e (outros) o prédio anexo à própria e enorme casa branca, que tinha sido ergui-da em algum momento imemorial por umas dúzias de trabalhadores braçais, comandados por um antepas-sado sesmeiro, numa clareira bem no meio de uma mata virgem, nas proximidades de um riachinho cheio de pedregulhos polidos pela torrente ininter-rupta da água, onde antes residiam, em casas comu-nais, os trabalhadores e seus parentes, que um dia, conta uma lenda meio trancosa, dados os maus con-tados de ordem política e conspiratória, devoraram um execrável padre jesuíta que liderava ali, naquele tempo, rituais litúrgicos de conversão, em um ritual não literário, porém literal de antropofagia. Tais pes-soas, então autóctones (os supostos canibais), embo-ra a ascendência deles chegasse a lugares mais lon-gínquos e muito mais gelados que a terra de Ismael e Lázaro, e muito antes, à terra que continha esses dois no instante dos seus respectivos nascimentos, foram expulsas, massacradas, escravizadas (umas dúzias), essa última, uma conveniente medida para propiciar a força de trabalho que ergueria em lavor excruciante, sob golpes frequentes de cipó, e às vezes, como exemplificação, infanticídios, mutilações, estupros, estripações, esfolamentos, empalamentos e outros métodos de atroz efetividade, a primeira versão da casa, essa feita de material e método autóctones, res-pectivamente caulim e taipa. E depois da casa, ainda não alicerçada por pedras, ainda não caiada de cal, mas já grande e já caiada de gente branca, a fim de se aumentar o tamanho da clareira na mata, seria devas-tada boa parte de todo aquele inferno quente, úmido e vegetal onde aquela gente primeva de que se falou, antes e agora, vivia deitada em hamacas, comendo carne de roedores de grande porte e coletas de árvo-res e raízes, o que propiciaria, num futuro próximo e apocalíptico (para muitos), a substituição daquele modo de vida daquela gente primeva, inconvenien-temente precário, inconvenientemente subsistente, por outro modo de vida industrializante, tão clorofí-lico e tão fotossintético quanto o pregresso, mas também inaudito nesse lugar até ali, nesse momento de maculada conceição; modo de vida tal, que destru-iria, ora sugando-lhes os fluidos, ora expondo-lhes as entranhas, a vida de homens, de animais, de máqui-nas e até o próprio chão outrora ubérrimo, outrora virgem; um modo de vida lastreado numa economia rentável de fato (para poucos), muito mais laboriosa, brutal e ensanguentada (para vários); muito mais doce, infinita e muito mais açucarada (para todos).
E da mesma forma (refiro-me aos métodos e processos e, no geral, à maior parte dos ocorridos) e na mesma época e no mesmo lugar e por ordem e administração de outros quatro sesmeiros inominá-veis, alguns já aparentados de antes daquele momen-to, que portavam títulos fundiários oferecidos por um rei (isso é uma questão de transitividade) que man-dava em terras algures muito distantes dali, naquele chão negro que nem terra, erguer-se-iam quatro ca-sas, posteriormente grandes e brancas, uma dessas esquecida devido a uma simbiose matrimonial, de que tomou parte algum ancestre sanguíneo do dono de outra propriedade, construída então naquela época em que mudas de cana-de-açúcar defloraram o chão, e que agora dividia o riachinho com as terras do pai desses quatro irmãos acima apresentados, e que ago-ra era mandada por um tal de Inocêncio Frirredo, fi-lho de Adamastor Frirredo, um homem de ciência, que um dia usara o filho num aterrador experimento de genética mendeliana, bem sucedido do ponto de vista científico, e com finalidades militares; uma ou-tra dessas casas foi fagocitada pelo abandono e pelo tempo e pela proliferação de espectros, ora terríveis, ora encantados que habitavam (dizia-se) o que res-tou da casa grande e de ervas daninhas e de mata na-tiva reestabelecida nos eitos; uma outra, que fora tomada por um movimento revoltoso, que dias atrás, destruíra os descendentes de um daqueles quatro sesmeiros de antanho, que até o dia da própria des-truição eram donos das terras e dos homens nelas contidos, um movimento revoltoso que agora tentava reorganizar em bases comunais a lavoura e a produ-ção do dulcíssimo açúcar e que precisava se proteger dos ímpetos expansionistas e reacionários dos vizi-nhos. Essas sesmas constituíam a zona rural, que so-mada a uma vilinha que não tinha mais que quinze casas, sendo uma delas a que abrigava o juiz, nor-malmente ausente, e uma força policial de cinco ou seis elementos esfomeados e outra, um comércio de subsistência, constituiriam o território do distrito de Jicamaranga, sediado a umas léguas de distância dali, onde parava, em uma estação ferroviária, todos os dias, duas vezes, um trem.
E o momento em que ocorreu a história de que tratamos nesse romance, que não se prestará, isso é muito mais provável, à qualificação de romance his-tórico, dado que o que aqui se narra prescindirá das premissas voluntariosas dos discursos que professam aqueles corações impetuosos que não bombeiam, nem nunca bombearam o sangue vermelho e nem podem ser contidos pela violência brasil da História, à qual esses corações sempre apelam parcialmente, sob os auspícios de interesses e esperanças contem-porâneos, quase nunca revelados, e que sempre in-tencionam torná-La uma azáfama cínica, enviesada e fraudulenta de feitos gloriosos executados por autên-ticos facínoras, ora, ora outra azáfama de manique-ísmos supersticiosos e não menos enviesada, não menos fraudulenta, de fato hagiografias, que resul-tam, amiúde, no flagelo de corpos cândidos e pudicos, na aniquilação de mentes supostamente revolucioná-rias, enfim em martírios; não se qualificará como his-tórico, também devido aos anacronismos e aos in-tempestivos problemas de datação, dentre outros ainda mais graves de um ponto de vista historiográfi-co; e não será histórico, além disso, devido ao fato de que a história que se narra aqui não se alongará mui-to no tempo – coisa de uma dezena de dias e um; os onze dias entre quatro e quinze de outubro de 1582, desse ano extirpados por um ofício papal – exceto por umas analepses, que recorrerão ao que se guardou em memórias repletas de névoas e espumas cada vez mais densas, cada vez mais pegajosas, que se acumu-lam naqueles espaços vazios do cérebro em que se desequilibram e se descompensam as quantidades de neurotransmissores, exceto por umas prolepses pro-vocativas, proativamente problemáticas, profusamen-te prolixas e paramentadas de paronomásias, o futuro dirá se sim ou se não, que tangenciarão pontos críti-cos da linha de um tempo ora mais, ora menos con-vencionado, malgrado as situações infinitas, ao me-nos na aparência.
Por outro lado, fundamentalmente graças às elaborações bem-intencionadas de um narrador su-posto e auto-dito confiável e onisciente, será roman-ce, dado que o enredo terá a forma de uma trama cu-jos nós, não propriamente muitos, serão fortemente atados, e cujos desatamentos (eis uma ou duas defi-nições funcionais dessa forma), exigirão, em sacros ofícios, derramamento de sangue em quantidades homéricas (isso não é uma hipérbole, nesse caso). Sangue dulcíssimo e brasil, que jorrará sob os dita-mes da Força: ora de assonantes artérias aortas aber-tas, ora de açoites, ora de sinédoques, ora das costas, ora de moças, ora de metonímias, ora de crânios jun-to às respectivas massas encefálicas, ora de buchos junto às respectivas tripas, ora dos membros, ora de facões, ora de projéteis metálicos, ora mesmo de tri-turações de partes de corpos humanos, que se tritu-radas aos esturros, que nem cana-de-açúcar, de que sai um caldo adocicado quando se aplicam violências semelhantes aos caules, daqueles caules ingentes da-quelas gramíneas, nunca celebradas em Cereálias, de que se falou no início – cana-de-açúcar – deixam sair o sangue que umedece o chão multicolorido e, fertili-zando-o, marca-o indelevelmente por toda a História.
Volto-me rapidamente a Vossa Mercê para ex-plicar que não serão nem a trama, nem os desatamen-tos dos nós que derramarão sangue, mas, por suas respectivas responsabilidades, os sujeitos que apare-cerão nessa narrativa é que o derramarão dos outros sujeitos que também derramarão sangue dos primei-ros e de outros sujeitos que participarei, eu, o narra-dor, em cena. Serão tantos quantos são os pés de ca-na de um canavial colorido de tons verdes esfuzian-tes, tantos quantos são os cristais translúcidos que compõem um pequeno punhado de açúcar (eis hipér-boles), que mediante processos de refinamento sulfu-rosos, deixa de ser marrom e fica branco, branquinho, cores que não serão sempre as mesmas das peles dos sujeitos antes mencionados, nem dos primeiros, nem dos segundos, nem dos terceiros. O sangue, por sua vez, sempre será brasil – variando, evidentemente, os seus matizes. Não lhe revelo tudo isso devido a ex-travagâncias de escritor, mas sim, a humílimas inten-ções explicativas, justo porque às vezes prosopopeias e metonímias e tantas outras espécies de figuras da linguagem podem se prestar a más vontades conota-tivas. Rogo-lhe que não seja, literalmente, o caso de Vossa Mercê! Segue o relato, então, na parte que se-gue.
As fantásticas aventuras de Nu-no
“A razão é a causa de falsificarmos os testemunhos dos sentidos”
Nietzsche, em 1888, um ano antes de perder a razão
Com as mãos, ele envolvia o pescocinho da-quela que violentava, apaixonado. Um grito tonitrua-ra, pregando-se às nebulosas de variados tons das mesclas do branco com vermelhos brasis, fúcsia e la-ranja do lusco-fusco pintados no céu em formas inde-finíveis, porém estáticas naquele exato instante do tempo implacável. Uma ave negra canora, empoleira-da e oculta na copa frondosa do coração-de-negro, pia chamados e divide em compassos a melodia monotô-nica do grito de horror. Ele não contemplou a luxuri-ante cúpula celestial que pairava sobre a própria ca-beça, muito menos se dedicou à elaboração de poe-mas líricos em honra ao espetáculo, nem mesmo um verso apologético ao som da siringe, que ouvira, nem ao preto ofuscante da asa da graúna, que não vira, muito menos àquele grito, pois se dedicava agora a uma ação. E antes de qualquer raciocínio sobre os próprios atos, pósteros ou imediatamente pretéritos, Nuno se lembra do dia em que voltava à casa, a fim de acompanhar os rituais fúnebres em torno do fére-tro que conteria o corpo inanimado do seu pai.
Lembrou-se do vuco-vuco da composição que o levava, da atmosfera embaçada que lhe impedia as certezas na identificação das alimárias sobre o pasto, da vegetação, quase sempre gramínea, de tons verdes frios numa saturação nauseabunda e onipresente; e mesmo incerto, viu tudo isso na miscelânea do mo-vimento uniforme das paisagens além das janelas do vagão que ora habitava. Lembrou-se também do pai. Era uma tarde, ele se lembrou disso, e fazia um mor-maço aziago, que prendia todas as coisas dentro do espaço entre o chão e um céu cinza pálido, tremen-damente nebuloso, com uma claridade esparramada em algum dos pontos da abóboda. Pássaros em voos rasantes riscavam o cinza celestial com listras pretas fugidias: eram vultos; os animais terrestres, manchas fluidas e pálidas; da vegetação saiam vapores esbran-quiçados, o que dava corpo à bruma na atmosfera que ele sentia e, portanto, conhecia desde pequeno e que não deixava nenhuma substância subir. Preocupou-se novamente com a alma do pai, uma alma de cor inde-finida, que teria, isso era certo, dificuldades de ascen-der aos céus. Mas talvez o sepultamento fosse acon-tecer apenas amanhã. A preocupação não era infun-dada, entretanto, pois ele se lembrou daquela manhã em que o sol começava a reaparecer por trás dos ves-tígios do imenso cumulonimbus que tinha tomado os céus desde a noite anterior e despejado uma torrente de água que encheu de poças de lama empretecida, as poucas ruas da sede do distrito de Jicamaranga, aque-la mesma manhã em que o pai, com o açoite que to-mou à cintura de Libório Cipoador, rasgou listras rubras no pano sujo e esfolado que cobria as costas e os braços daquele homem, enquanto Nuno e dois dos seus irmãos tomavam exultantes um caldo da cana-de-açúcar na vendinha, onde antes Nuno estava com seu pai e os seus três irmãos na intenção de comprar alguns víveres e mantimentos e de saber das novida-des que o correio ferroviário trazia da capital e de onde ele viu o pai sair em corrida furiosa, e depois trespassar a azáfama atordoada naquele dia de feira, açoitar aquele homem sem qualquer clemência.
Ao perceber a aproximação do Rio Jicamaran-ga com o seu caudal barrento, insinuando-se lepida-mente entre os morros nem tão altos, observa os ros-tos ora nítidos, polimorfos e multicoloridos, ora in-cógnitos por véus, ora ostensivos e de cabeças cober-tas com chapéus de desenhos variáveis dos viajantes. Escuta os apitos agudos e estrepitosos dos jatos de vapor, do excesso da Força que escapava das cavida-des cilíndricas, enquanto os pistões iam e voltavam, deflorando-as, em simulacros industriosos de movi-mentos pélvicos, dos movimentos das peças da má-quina que ia ao longe, na dianteira e lhe carregava, como carregava a todos os seus companheiros e os outros vagões, um desses bem fedorento infectado de vestígios de adubo suíno e mato seco, contendo gente mal vestida, alguns mesmo despidos, e sentada no assoalho; uma gente cujas esperanças já se extirpa-ram na base do açoite, há tempos.
Havia uma angústia, da qual ele se lembra, como algo que se expande dentro das cavidades pleu-rais e do mediastino, engolfando todos os órgãos que encontra e às vezes palpita e às vezes, depois do pon-to máximo da tensão superficial, rompe-se numa ex-plosão, quebrando violentamente a finíssima mem-brana, dentro de um substrato pegajoso, cujo fluido plasmático trespassa imediatamente à glote, quei-mando as mucosas da boca e a língua, e deixa lá um gosto choco e sempiterno, sabor que relaciona pri-meiro a uns odores amadeirados e oleosos de água de colônia e de relva destroçada e depois às ondas de choque reverberando até seu assento, agora sacole-jante. Os braços entesados sobre a alça do banco logo à diante tremulam em réplica ao atrito contínuo entre o ferro dos caminhos e o ferro das rodas que arrotam rosnados vucovucoleantes, estridentes e tilintantes como as correntes que se prendiam às mãos e aos tornozelos e às vezes se chocavam enquanto homens e mulheres caminhavam ao destino desgraçado, quando a bolha azeda se expande ao ponto máximo e estoura novamente na garganta, e um homenzinho de malares rosados e retilíneos lhe cumprimenta, e de quem ele não se lembra, pois naquele momento ele não pode se lembrar do dia em que eles se sentaram à mesma escrivaninha, pela primeira vez, na aula inau-gural do curso de Direito.
Alguns bancos depois, por trás de outra escri-vaninha portentosa, uma cabeça sem chapéu, branca como algodão, fala-lhe da liberdade como a condição natural do homem e também de um mundo onde esse homem tão livre tudo poderia possuir, porque o tudo era sempre, no máximo, um conjunto de pequenas necessidades, quase meramente corporais, naturais. Ele se lembra de que não replicou as observações do professor, como esse esperava que fizesse. Lembra-se de não ter falado de disputas quase tão orgânicas, imanentes, aquelas em que homens precisam se me-ter por uma mulher, contra o pai, contra os irmãos, contra os filhos e contra outros homens, para depois cuidar dela e depois a submeter e assim lhe destruir a fina camada de inocência quase infantil, mas não se lembrou disso agora. Deixara a bagagem aos cuida-dos de um funcionário da viação, e logo percebeu no assento ao lado, a mochila pardacenta de couro com iniciais gravadas em vermelho; talvez fosse feltro ou veludo bordados pela mãe, enquanto ele e seus ir-mãos brincavam nas imediações da casa, ou na mar-gem do riachinho, ou mesmo em uma das expedições pueris às terras vizinhas, longínquas naqueles dias de inocência, ou, talvez, as iniciais tivessem sido grava-das por ferro incandescente, daqueles que marcam o couro ou a pele, identificando o titular daquela pro-priedade ou alguma insolência mal-agradecida que o levou (o dono) a uma escapada; uma hiperplasia em F um pouco mais escura que a pele, em caixa alta, pertinho do malar ou mesmo na testa. E aí sentiu o cheiro de carne incinerada e o ruído da vaporização cauterizante, o mesmo odor e o mesmo barulho que ele sentiu depois, naquele dia, quando ele encontrou a guarda do pai de Mariana, com todos aqueles ho-mens de várias tonalidades nas epidermes e sempre de olhos glaucos, como nesgas redondas de mar em meio a rochas magmáticas pretas; atóis em meio ao mar trevoso, montados em cavalos grandíssimos e pluricoloridos, trazendo um homem a quem ele olhou direto nos olhos e de imediato percebeu o brasil da hemorragia subconjuntival em ambas as escleras, um homem com espáduas desnudas, vestindo calças esfo-ladas em alguns dos seus pontos, de pés sem nada e mãos amarradas nas costas e o pescoço envolto numa corda, que tinha cor de corda por quase todo o seu comprimento, exceto no laço cervical, que já se mar-cava com o vermelho sanguíneo do homem laçado, que caiu uma vez com a cara no chão poeirento, o que lhe extraiu, antes o espatifando, um dente incisivo, o que lhe rasgou a gengiva e lhe ensanguentou a boca, o queixo e o pescoço, a corda, o torso molhado de suor e do material das glândulas sebáceas, tudo por causa da Força do solavanco que um daqueles homens ne-gros manejou, o que segurava a corda, montado num cavalo colossal e chamuscado e marcado nos quartos com um F carbonizado. Mas ele apenas botou a bolsa nas costas e andou até à porta da sala, percebendo que chamava a atenção dos seus polimorfos colegas, uns, nesse momento, apenas espectrais ou obscureci-dos.
O trem marchava naquele mesmo ritmo nau-seante e, seguido a uma piscadela dos olhos, tudo se fez em uma escuridão lisa, que se manteve pelo exato tempo, apagando tudo, enquanto os rostos iam se revelando aos poucos, à medida em que as pupilas dele se expandiam, pluriformes e com feições hostis. Nuno havia se esquecido, ele se lembrou, de que al-gum dia se construíra um túnel ali no seu caminho, não se sabe com que propósito, dada a discrição dos acidentes orográficos da região em que crescera e vi-vera até sair para se formar bacharel, e à qual retor-nou às pressas de trem, para o velamento e enterro do pai. Resolveu, portanto, voltar ao seu banco, a fim de esperar que a luz se fizesse novamente e cruzou as mãos com a Força inusitada, sentindo um conforto lúbrico e áspero entre os dedos, como se as enfiasse numa saca de cristais de açúcar. O professor agora falava de um monstruoso ser, de mil olhos e mil membros, que obrigava os homens a serem felizes. À recusa por parte daqueles que preferiam a infelicida-de, o monstro lhes batia com um cetro brandido por suas milhares de mãos. A violência os desacordava, mas o monstro não cessava o ímpeto e completava a condenação arrancando com a boca e as engolindo, as cabeças dos infelizes e jogando os corpos vilipendia-dos a lobos e aves carniceiras. E em meio a esse fes-tim, ele regurgitava as cabeças, já com as faces detur-padas pelo banho do cáustico suco que se lhe assen-tava no estômago do monstro multiforme e assim as expunha em praças públicas como o prêmio merecido por uma vitória obtida contra a infelicidade e a insen-satez, e depois em museus que contavam a história triunfal da razão violenta, aquela mesma razão que transformou homens em bichos, pois de máquinas não se açoitavam as costas. E no único lugar ilumina-do naquele ambiente, havia uma jaula onde estava a bancada do professor, que agora se punha em pé, ca-minhando de um lado para o outro, segurando por uma corrente luzidia, um lobo obediente (ou um ca-chorro ou um porco rosa e corpulento, que permane-cia bípede, usando um chapéu com duas pontas no cocuruto e aba larga, enfim, uma entidade feral). O nome do negro era Émille Mundurucu e ele se apre-sentou com um sotaque afrancesado, vangloriando-se do tempo em que comandou guerreiros tenazes num conflito sanguinoso e endêmico alhures, num antigo inferno de plantações da gramínea de que se estripa-va um açúcar tão doce quanto aquele que se produzia nas terras do pai de Nuno.
Isso tudo durou tanto quanto a metade do tempo, até que o clarão entrou de novo pelas janelas do veículo, contraindo dolorosamente as pupilas, que logo perceberam a manifestação daquela luz anuviada de antes, em que se suspendiam uns fiapos de tecido, uns espólios exoesqueléticos de animais inferiores, uns vestígios minúsculos de matéria vegetal, talvez, tudo em movimentos erráticos. E agora não havia mais rostos pluriformes e sim máscaras de cores vari-adas e sem quaisquer feições, cujos corpos custavam a se mexer. O trem parou e ele foi à porta, puxando o mecanismo de abre-fecha, que resistia orgulhosamen-te, até que viu no parco reflexo da vidraça, a sua ima-gem pegando fogo. Esmurrou-se a fim de cessar aque-le sofrimento, quebrou o vidro e, com sangue nas mãos, atravessou a janela em estilhaços, acordando com o cheiro da grama, que lhe sujava o rosto e já fora do trem, sentiu também com o olfato aguçado pelo susto, o cheiro de sangue e o cheiro do vagão pestilento que cobria com seus ferros e madeiras um homem de quem ele só podia ver a cabeça, uma cabe-ça deturpada. Aproximou-se e viu saírem correndo daquela caixa ao chão, outros homens e mulheres e crianças que declinaram da proposta do monstro de tantos olhos e tantos membros, recusando a felicida-de, preferindo honrosamente, a morte e o vilipêndio. Foi-se embora na direção contrária dos infelizes, por um caminho estreito que cortava a relva das margens da linha de ferro, pisando o chão úmido, de cristais grosseiros, que crepitavam sob a Força do solado das botas, como crepitava o punhado de açúcar clarinho quando entrava na boca e era triturado pelos dentes. Enquanto progredia em meio à relva orvalhada que umedecia os sapatos e as pernas das calças, Nuno percebeu um feixe contínuo e direto de luz brilhando entre os nimbostratos, e que lhe seguia incessante-mente, como se fosse um holofote. E sob a ilumina-ção solar refratada, ele começou a execução de uma hipocrisia, sentindo, entretanto, falta da máscara. Mas não de uma das máscaras inertes que ocultavam os rostos dos seus companheiros de viagem no vagão, dos quais agora nem pode perceber as feições vacilan-tes ou dos seus colegas na sala de aula, de quem mal conseguia se lembrar, mas sim de qualquer uma das máscaras aterrorizantes que ele e seus irmãos um dia usaram, ele imaginou, enquanto matavam o capataz.
Mas se o pai (a alma do pai) não ascendesse aos céus, aonde iria? Não era apenas um problema atmosférico, meteorológico: não era a viscosidade do ar que o envolvia; o qual respirava com muita hesita-ção. Talvez o questionamento de Nuno, ele se lem-brou, dissesse respeito à substância de que era feita aquela alma e ao resultado cromático da feitura da-quilo que estava contido numa vida cuja função no mundo era decidir os destinos de tanta gente, primei-ro mediante a operações comerciais, depois mediante à exploração daquela Força potencial armazenada em músculos, tendões e mentes, que já no movimento dos corpos que A continham, decepava as plantas, as plantas que carregava, as plantas que atroçoava, e de onde saía um fluido, que fervia, às vezes sendo as al-mas daquele tipo de ser, submetidas por essa Força, manejando a Força que tinham, a matéria a ser fervi-da, por acidente ou por suicídio, nesse fogo infernal que fazia ferver aquele fluido ou mesmo no próprio fluido ebuliente. Pensou nisso como uma resposta à Força que ele mesmo manejava entesando os braços, das omoplatas até os dedos e se juntou a Lázaro, He-lena e Ismael, a primeira, sua gêmea, os seguintes, seus irmãos de leite, para elaborar um plano homici-da. Mas antes, ele viu um dos irmãos saindo furtiva-mente do armazém, sem o pai ter percebido, em dire-ção ao aperreio da feira livre daquela manhã, talvez procurando o negro que vendia gaiolas e aves cano-ras, da mesma forma que Lázaro saiu do laboratório onde estava o alambique que deveria ter ficado sob a guarda de Hélio Negão, que não teve chance de notar o menino. E um urro pueril e jubiloso foi ouvido, por dentro dos ouvidos, mantendo-se na atmosfera até o momento em que, logo depois, as quatro crianças foram correndo ao lugar marcado, naquela clareira na beira do riacho farfalhante, sob a sombra complacen-te do coração-de-negro, onde ele, muito tempo de-pois, se apaixonara por Mariana, então acompanhada de uma menina, uma aia, a primeira recentemente núbil, a segunda ainda uma criança, em quem Nuno atirou, acertando-lhe a têmpora de raspão. No dia daquela inesquecível travessura, por sua vez, ele e os outros irmãos encontram Lázaro que primeiro chega-ra ao lugar antes acordado, brandindo a garrafa, sob um feixe de luz solar que enfatizava o verde do capim que cobria o chão, o azulíssimo no céu, as águas diá-fanas, a iridescência dos cristais da pedreira de grani-to que margeava o veio de água pouco mais acima e onde se desenhara, uns anos depois, com uma pedra abrasiva o alvo daquela competição de tiro com o no-víssimo em folha mosquete Brown Bess, que fez subir um cheiro de pólvora, Nuno sentiu, como sentiu o cheiro inebriante do álcool, que se espalhava quando aquela luz fantasmal transluzia a garrafa âmbar, da qual, logo em pressa, aquelas crianças tomariam o conteúdo em goles, em rodadas. E rodada a rodada, consolidava-se implacavelmente a intoxicação etílica e já na terceira, estavam todos bêbados. Insistiram no processo, que logo se transformou em competição, da qual ele foi o primeiro a desistir, não por volição própria, mas porque começara a ter tremeliques e tonteiras e logo depois a vomitar, sob as gargalhadas dos comparsas, um produto primeiramente incolor da cor de cachaça, mas depois do quarto ou quinto es-pasmo, amarelado, hepático, amaríssimo. Ismael o seguiu na desistência, já na rodada posterior, alegan-do, Nuno se lembrou, medo das possíveis reprimen-das, caso aquela traquinagem fosse flagrada pelos adultos. Sobraram Lázaro e Helena, que chegaram juntos à oitava volta, quando foi a vez de Lázaro tombar. E enquanto ainda se recuperava, Nuno viu a irmã, agora ela, uma bailarina ébria, movendo os bra-ços em várias direções, rodopiando o vestido, dan-çando ao ritmo inconstante da brisa que balançava as folhas ora verdes, ora vermelhas, ora secas que nem palha, e os galhos daquela árvore copada onde piava chamados uma ave negra, no dia em que ele encon-trou Mariana, e que agora sombreava o sopé da es-carpada pedregosa, onde se gravava o alvo em que ela disparou um projétil de mosquete Brown Bess, sur-rupiado do cômodo onde o pai negociava açúcar e às vezes vidas humanas, pelas próprias mãos de Helena, as quais, muito mais habilidosas que as mãos dos irmãos venceram a contenda, acertando o centro do alvo, da mesma forma que ela acertou com uma bala aquela árvore sombreira e na qual Ismael talharia, antes, o nome de Helena e o seu, dentro de um simu-lacro de coração, o signo romântico, que ele também talhara, rasgando o sagrado madeiro daquela planta, e brandindo triunfante a garrafa de cachaça e soltando gracejos pedantes, que enfatizavam a fraqueza dos irmãos frente à sua disposição de sinhazinha de en-genho. E era com ela que contava Nuno para o plano sanguinário contra o capataz.
Libório Cipoador nem esperou as ordens do pai para retalhar com o açoite as costas de Hélio Ne-gão, o exímio mestre-cachaceiro, cuidador do alam-bique, já septuagenário, que caíra no ardil das crian-ças no início da tarde de ontem, tendo aprendido as etapas daquele processo industrial suplementar, do qual se obtinha um líquido fermentado, que se desti-lava no alambique e se chamava cachaça, com o seu próprio mestre, cujo nome, que não fora gravado em uma lápide depois da sua morte, do seu velório, que não aconteceu, e do seu enterro, já se tinha esquecido por ali havia muito tempo.
Amanhã tem cipoada no tronco
cipoada pra rasgar o lombo
Do lombo do preguiçoso
um sanguinho há de pingar
No couro rasgado do lombo
joga cachaça pra sarar
Nuno ouviu as cominações melódicas nos pen-samentos de Libório Cipoador, que odiava Hélio Ne-gão e ia fazer o que devia, não apenas por prazer, em-bora também por isso fosse, mas também porque era remunerado pelo seu pai para fazer tal labor, com uns trocados que gastava no bordel perto do centro de Jicamaranga ou de algum distrito das redondezas, toda semana, e uma garrafa do alambique de Hélio Negão, o qual nunca tinha torturado e agora tinha a chance de finalmente torturar. Mal amanheceu e a atmosfera embaçada e o balanço nauseoso envolviam Libório, que se juntou a uns auxiliares e arrastou Hé-lio Negão da câmara do alambique, onde o velho dormia, como sempre dormiu, desde quando deixou de cortar cana, desde quando deixou de entornar o caldo fervente, desde que as amplas espáduas come-çaram a se fechar e decair, desde que aprendera as metodologias da destilação, e já lhe dando umas pan-cadas, levou-o até o tronco e atando-lhe as mãos e depois, com o que sobrara da corda, atando-lhe ao mastro, começou o seu dever obsceno. Hélio Negão não sobreviveria a muitos golpes do instrumento de Libório, o cipó de tiras de couro trançadas grosseira-mente, incrementado com dentes humanos nas pon-tas dos seus fios e cabo de madeira, o mesmo cipó que o pai naquela manhã usara para proteger e depois vingar Lázaro, que gritara por socorro depois de levar dois tabefes no rosto de um homem branco, Lázaro disse, um valentão da redondeza que nunca vira um menino negro vestindo calça e camisa alinhados e engomados com pó de arroz e a quem Lázaro só po-deria parecer mais um daqueles negruinhos atrevidos que algum canalha benevolente tinha soltado pelo distrito e que só poderia ter roubado o dinheiro que usou para comprar um passarinho e uma gaiola visto-sa, os quais o homem branco achava que tinha o di-reito de adquirir por um preço mais baixo do que aquele que ofereceu ao negro que os negociava, Láza-ro. E numa visão desanuviada, Nuno viu, de novo e já tarde demais, a violência do ocorrido no algodão em-brutecido rasgado, que deixava parte das costas des-cobertas e cheias de listras disformes e brasis man-chando o molambo que vestia as costas de Hélio Ne-gão, ora já rasgado, ora já rasgadas, em várias partes. As costas daquele senhorzinho tão sábio e conversa-dor, já lento por causa da idade, mas vívido no porte e no juízo, até aquele momento quando se deu o tra-balho assassino do capataz, que deitou definitiva-mente o corpo da sua vítima em decúbito ventral, expondo orgulhosamente o vilipêndio que perpetrara às carnes do idoso. E como se tivesse Libório na sua frente naquele momento, Nuno o encarou e, num ra-ciocínio nítido, decidiu pela morte do capataz, ence-nando-a nos seus raciocínios sobre o futuro; um vis-lumbre que não era sobre uma morte simples e rápi-da, mas sim uma morte cujo simbolismo e significa-ção seriam flagrantes, seriam exemplares, ritualizados em procedimentos atrozes, que provocassem sofri-mento hiperbólico àquele homem, e que fizessem todo mundo naquelas terras se lembrar pra sempre do que fizera com Hélio Negão, o capataz Libório Cipoador, que, em resposta ao olhar iníquo de Nuno, juntando as pálpebras, com um sorrisinho satisfeito e homicida, encarou-o de volta, desviando o olhar, en-tretanto, quando percebeu que Helena se aproxima-va. Nuno então viu na cara do homem, uma máscara sórdida e lasciva, desejosa do corpo ainda impubes-cente da sua irmã gêmea.
Os raios solares refratados por uma nuvem, ou por várias sobrepostas, acompanhavam Nuno, que agora se lamentava cambaleante sobre a perda da bagagem em que estavam as suas máscaras, as mes-mas que lhe dera Afrodite, as máscaras do amor, de-pois de executar sua própria hipocrisia, naquele pal-co, naquela noite no teatro, quando ele lhe falou
Afrodite, magna entre homens,
petrifica-me com teu olhar
e esquenta minha alma
com a concupiscência de tua volúpia;
e com o teu toque incandescente,
cauteriza minha pele e meu coração,
tornando pó meu sangue, depois de uma ebulição espumosa,
como aquela da castração parricida
que perpetrou o uranida, teu pai,
da qual tu nasceste, oh deusa terrível!
que causará tantas desgraças por onde eu passar.
É tua minha razão até o fim dos tempos,
até o fim do mundo.
Testemunha minhas ações!
Estou apaixonado!
Cercado por dois campos onde verdejava uma relva de folhas cintilantes e varas ingentes, cambale-ando e enjoando no balanço da charrete, carregada por dois cavalos, um castanho e outro meio malhado, tão fortes e altos, Nuno viu o pai sentado à frente, do lado de Libório Cipoador, que agora brandia um chi-cote e não seu açoite medonho, Ismael ao seu lado e, no banco oposto a eles, Helena e Lázaro, que tilintava entre as mãos umas moedas ganhas do pai e só falava em comprar uma graúna ao negro que vendia uns passarinhos na feira. Era uma manhã molhada, com o céu bastante acinzentado e ele percebeu, pelos pingos nas folhas do canavial e pelo ranço úmido na madeira das cercas que circundavam as terras do pai naquele ponto do caminho até a sede do distrito, os vestígios do temporal do dia anterior. Ora ou outra, Cipoador estalava as costas dos bichos, aumentando a intensi-dade e a violência dos golpes, quando esses empaca-vam frente a uma poça de água. Em resposta os ani-mais puxavam o veículo num sopapo e eles atraves-savam a poça ruidosa, movimento que sempre levan-tava um cheiro azedo de equinos, ele se lembrou. Quando o caminho era menos acidentado, o estalo era das ferraduras dos bichos e das rodas de madeira com o chão úmido. Mas a vontade de vomitar logo desapareceu quando eles saíram do caminho de terra e a relva verde, rasgada por uma listra de terra meio escura, meio barrenta, metamorfoseou-se em uma senda diagonal de ladrilhos, que ele definiu como um substrato fixo e áspero, sobre o qual se deslocava; não mais vinha luz de lugar algum e sequer os olhos se direcionavam ao chão, isso seria inútil, mas ele sabia que havia naquele solo, consistência suficiente para contrair a musculatura das pernas, compreen-dendo que era dessa Força que tirava o próprio mo-vimento, numa direção que não conseguira definir além de um nada trevoso e liso, pois não identificava coisa alguma, só um breu circular, que apenas aumen-tava e aí ele entendia que caminhava em passadas silenciosas no meio de uma rua cercada por vegeta-ções ainda mais escuras e ainda mais sombrias, ainda mais disformes, embora não as tivesse enxergando, ou não soubesse se as estava enxergando, nem pu-desse lhes definir as cores. Havia uma certeza desco-nexa, mas precisa, talvez um remorso, que latejava como um priapismo involuntário, uma memória níti-da no centro, mas embaçada nas laterais; um círculo mal iluminado, envolto em uma escuridão tão exata quanto aquela que se manifestou por tão pouco tem-po, quando o trem esteve dentro do túnel e ele conti-nuou no ritmo vucovucoleante, ladeado agora por casas de portas e janelas invencíveis e paredes tão sólidas, cinzentas, que se adornavam com listras íg-neas e pluridirecionais, como se enraizadas por algum vegetal maldito e obstinado, um vegetal cujos frutos fulgiam um dourado tão ofuscante quanto bolas de fogo solidificado, os quais ele perseguiu e quis possu-ir, porque tinha fome, num ritmo que lhe permitia um deslocamento pendular limpo e progressivo, co-mo se a rua que pisava não tivesse acidentes, crateras e buracos, nem mesmo outros acidentes menos drás-ticos, como uma estrada plana, feita de vidro ou de gelo ou da pele de uma Virgem submetida pela Força que ora manejava, mas um deslocamento que lhe se-gurava a pele aspérrima das solas dos pés, ele supu-nha, que ele não sentia, mas também vislumbrava, pois sentia os músculos contraídos das pernas em sensações intermitentes, idênticas aos movimentos oscilantes que ele já fizera, vários, na vida, na maior parte deles, calçando botas encouraçadas. E lhe to-mou a certeza de que segurava uma arma, de cano longo, um fuzil ou uma granadeira, talvez um arcabuz, um pescoço delgado, mas podia também ser um taca-pe ou até uma foice daquelas que usavam os homens nas terras do seu pai, para decepar os caules da cana-de-açúcar, pois os braços se entesavam e pendiam para baixo, numa agonia expressa em espasmos dolo-rosos das articulações. Mais: respirava profundamen-te e ouvia o próprio batuque cardíaco; e lhe tomava o interior, uma palpitação volumosa, que inflava e lhe chegava às mucosas da goela, mas que dessa vez não explodiu; vivenciava assim, numa excitação máxima e aguda dos sentidos, que testemunhavam a beleza sem máscaras da face terrível e agora aterrorizada daquela atriz e o cheiro de açúcar derretido, que se espalha explodindo as bolhas iridescentes que o contêm, e de mato macerado e o barulho da água escorregando nas pedras lodosas e o refresco do sereno sob o lusco-fusco lhe lambendo o líquido da transpiração cacha-centa, que encardia o branco da gola e do peitilho da camisa antes branca como a pele da Virgem e enchar-cava a pele branca daquela a quem invadia, a quem violava apaixonado com um suor doce, que ele sentiu com a língua, com que também provou a frieza metá-lica de uma correntinha, um escapulário com o pin-gente da imagem gravada da Virgem, que a circulava e de cujo nome se esquecera para sempre, cujo ato era a paixão, cuja hipocrisia era o amor, uma misce-lânea neuroquímica, um fluxo implacável e furioso, uma maldição de um deus, ou de uma deusa, do tipo que sofrera aquele homem no teatro e que naquele momento amaldiçoava o momento em que nascera, matando a própria mãe, como um objeto ígneo, um tição vermelho em brasa, que a incinerou por dentro entre seu último momento de vida intrauterina e o seu primeiro momento fora do útero materno, fora do ventre da sua mãe, morta por um matricida.
E depois do estupor, Nuno viu pregado numa parede acabadiça, um cartaz anunciando uma peça de que ele nunca ouvira falar, cujo talbótipo lhe chamou atenção, preso com tachas de latão fincadas nos qua-tro vértices, ao lado do cartaz, naturalmente em cores fortíssimas e quentes e nítidas, em que figurava aquela cuja hipocrisia era Afrodite, que vestia agora sob a face amedrontada e medonha, a máscara de Mariana, enevoada que nem algodão doce, cujos no-mes reais dos hipócritas estavam na parte de cima, mas ele não os pode decorar, muito menos se lembrar deles, exceto o nome da moça que lhe primeiro cha-mou atenção ainda criança: Mariana. E tomou a deci-são de ir ao teatro ver a peça no início da noite, na-quele dia, quando viu de relance a menina na sala ves-tindo branco, com uma fita rosa luzidia amarrada à cintura, segurando um prato que continha a sua doçu-ra, ao lado do pai, sorrindo. E já no quarto dela, en-volveu-lhe o pescoço, apaixonado, por noites e noites e mais uma noite, depois das aulas, depois das hipo-crisias afrodisíacas que ela executava sobre o tablado que emitia música no ritmo das batidas das suas pi-sadas de mulher na madeira, que tanto mexeu o cor-po concupiscente nas cominações introdutórias, diri-gidas aos homens que não a amassem, que não lhe prestassem a devoção eterna e apaixonada; ela com quem ele dividiu o leito e a quem contava suas ane-dotas embaçadas de menino feito de açúcar e seus planos megalômanos de homem liberal e abolicionis-ta; duas mimeses de uma mesma pessoa, de um mesmo Nuno, que queria encher de música e de ím-peto as lacunas daquelas histórias que narrava a Afrodite ao ponto de elas fazerem algum sentido, qualquer sentido, até que a Força entesou novamente os braços, dos ombros, passando pelas bainhas sino-viais doloridas, até as mãos que envolviam uma mas-sa cilíndrica e delgada e alvíssima, quando ele escutou os sons mais bonitos da vida até hoje, até agora, pois antes eram os sons mais bonitos os da voz de Branca, que chamava com voz materna e doce a ele e aos seus três irmãos, para que entrassem na casa grande e lá fizessem merendinhas: comendo bolo de leite coberto com melado escuro e dulcíssimo, com um copo de leite, às vezes amarronzado por uns pinguinhos de café ou de açúcar queimado; mas esses sons eram apenas uma lembrança terna e o que os seus sentidos agora testemunhavam sob essa abóboda celestial multicolorida, rasgada por um grito horrendo e infini-to, era o som dum sorriso quente de criança brincan-do, com cheiro frutado e de açúcar aquecido num ta-cho de doçaria, e a voz de Afrodite, que saia de uma boca intumescida e lhe dizia, ele escutou: meu amor.
E Afrodite, depois de se findarem os vaticínios maledicentes do seu prólogo, calou-se. Então Nuno escuta o ruído da gramínea triturada pelos seus mo-vimentos, no mesmo instante em que vê a biblioteca aberta pela primeira vez desde que chegara à faculda-de e vira aquele edifício imponente, que guardava o conhecimento mais avançado entre todos os que se conheciam até aquele tempo. Invade-lhe o nariz, o cheiro micótico de papel velho e de madeira úmida, exalado pelas prateleiras umbrosas, dispostas em ní-veis que iam da altura dos joelhos em direção ao alto infinito, os quais Nuno não conseguiu alcançar com as vistas e onde vários livros se enfileiravam. Apro-ximou-se delas e caminhou examinando a estante, depois as outras, nível a nível, livro a livro, tomo a tomo até onde poderia, iluminado pelo feixe de luz potente de um dia ensolarado, que entrava pelos ja-nelões que vazavam as paredes do lugar, quando uma sombra escureceu as estantes, impossibilitando-lhe a continuação das suas buscas. Nuno agora se vira e vê, primeiro uma silhueta, envolvida por uma fortíssima luz e pelo índigo do céu, e logo depois identifica um homem de aspecto imponente e já velho, mas não tanto, negro, de cabelos nebulosos de tão brancos, vestido formalmente e adereçado por um jabor que lhe envolvia o pescoço. Imagina que o homem negro e sobranceiro seja um dos professores e, por isso, ar-queia levemente o corpo, num gesto reverencial e cumprimenta o suposto mestre, logo depois dizendo o próprio nome e grande parte dos vários sobreno-mes, como se quisesse equilibrar as posições entre eles. O homem lhe replicou as mesuras, silencioso, mas eloquente nos gestos, entregando-lhe logo uma espécie de jornal, cujo idioma do texto Nuno logo identifica como o francês, cuja publicação datava de muito antes daqueles dias. O homem se despediu, com um movimento rápido das mãos e caminhou até desaparecer na escuridão que emitiam aquelas estan-tes. Nuno ainda continua examinando os volumes à frente, mas não tem nenhum interesse peremptório nas outras coisas que encontra. Dobrou o jornal que tinha nas mãos e seguiu caminhando, cobrindo os corredores que margeavam o riachinho onde ele co-nheceu tanta coisa e viu novamente Mariana, que lhe respondeu com os olhares, caminhando até ele; e logo o beijava com a lambida doce da boca dela, o hálito intoxicante de cachaça nos cabelos e logo depois, am-bos se deitando sobre a relva delicada que soltava um cheiro amargo em resposta à fricção lúbrica que fazi-am os seus corpos e ele a cobriu, e se metamorfosea-ram em um todo unívoco e luxurioso, hermafrodisía-co, quando ele escutou um grito contínuo, mas com-passado de uma feiticeira que lhes imprecava sortilé-gios e outras magias, enquanto a abria inteira, ele se lembrou, enquanto ele a despia, rasgando e trespas-sando as suas defesas puras como lencinhos de algo-dão, depois frágeis como uma película, invadindo contundentemente seu corpo, como a espuma de on-das de mares notívagos que penetravam corpos im-polutos e concebia ninfas, e tomou o mel escuro de uma mordida, com gosto do melado com que melou toda aquela pele nívea, que já era também dele, por todo aquele corpo marmóreo e virginal, agora profa-nado por um fluxo hormonal de finalidades priápicas, tapando-lhe a boca e fazendo cessar o grito e os pran-tos e toda a resistência, e só ouviu o silêncio abafado de gritos desejosos que perduraram ali, até o infinito como os gritos moribundos de Libório Cipoador, a quem ele entregou um bilhete escrito com a caligrafia e o estilo de uma moça romântica, que comunicava um encontro licencioso, dias depois da sevícia a que o capataz submetera Hélio Negão, justamente no alambique, agora abandonado, agora ermo, onde Li-bório encontraria o corpo de Helena, que lhe entrega-ria sua virgindade, assim deveria ele supor, por meio do que se escrevia com as letras simuladas da irmã, como no bilhete que marcava um encontro noturno, entregue, e também escrito, pelas mãos de Nuno, que agora iam se desfazendo da Força.
E depois de muito tempo caminhando pela senda de ladrilhos que cortava o mato, chegaram to-dos: os da guarda, Nuno e o homem amarrado – cha-me-o, Vossa Mercê, de Sigfried – às terras de Inocên-cio Frirredo, onde Nuno nunca estivera e onde ele viu outros homens com peles coloridas de vários matizes de negro, que já tinham desmontado dos seus equi-nos, segurando o tal Sigfried, que olhou Nuno com um rosto de feições indefinidas, manchado de violên-cia, depois de lhe desfazerem o laço ensanguentado do pescoço; as terras onde ele viu, pela segunda vez na vida, Inocêncio Frirredo, um homem branco que nem açúcar sulfurado, com uma aura rosada sobre a pele, agora mais fornido, agora com olhar mais tene-broso e de olhos tão glaucos e tão gélidos e tão idên-ticos àqueles que conseguira fitar nos homens negros da sua guarda, homens que o chamavam de Coronel ou de Pai Branco ou de ambos os nomes, e que eram comandados por aqueles olhos, agora sombrios, que se moviam implacáveis sob a réstia que fazia o cha-péu de ampla aba contra a luz do sol, aquela guarda, cuja genética era uma cosmogonia terrífica, cuja fina-lidade era tocar o terror nas terras vizinhas àquela onde ele viu pela primeira vez na vida, uma menina de cabelos e olhos meio acobreados, novamente com um vestido branquíssimo rendado na barra, amarrado à cintura com uma fita de um magenta cintilante, se-gurando um prato e em nome de quem foi amaldiço-ado, novamente, quando pediu a Inocêncio Frirredo a permissão para desposá-la, o que ele um dia executa-ria, depois de acabado o amor e iniciada a paixão, sob um céu de beleza extravagante, em que a luz fugidia e multicolorida do entardecer pintava as nebulosida-des, na beira daquele riacho que desaguava no Jica-maranga, o rio caudaloso que cortava todas as terras que ele conhecia até aquele dia e onde ele também viu um braseiro de tições incandescentes, como um dia lhe definiram, do qual um homem de olhos ciãos, agora também desmontado, cujo nome nunca soube, puxou uma vareta de extremidade brasil, que encos-tou com toda a delicadeza na face de Sigfried, fazendo um vapor estrídulo subir, fazendo chegar às narinas de Nuno um cheiro de carne calcinada e fazendo se pregar no céu azulíssimo, mas esbranquiçado em muitas partes por singelos cirrocúmulos algodoados, um urro tonítruo e assombroso, esse gritado pelo homem a quem agora Vossa Mercê resolveu chamar de Sigfried, o nome de um matador de dragões, que agora tinha sido liberado por aqueles quatro cavalari-anos e agora, depois daquele processo de reeducação, já estava livre para se debater à vontade naquela grama verdinha e fofinha, depois de um banho de uma ardente aguardente de cana-açúcar, que lhe mo-lhou as feridas pelo torso e pelos membros, queiman-do-as, e molhou aquela ferida na cara, que nesse mo-mento lhe expunha um pedacinho encarnado de teci-do conjuntivo, no lado esquerdo, onde uma marca nasceria e permaneceria até o final da vida daquele homem, Siegfried, e mesmo depois desse fim, por alguns dias dentro de uma vala funesta, indicada por uma cruz de madeira caiada, mas sem onomástica, muito menos epitáfio, pois nunca houvera lápide al-guma para escrever qualquer nome que Vossa Mercê queira lhe atribuir, sob aquele chão negro e fértil, os dias necessários à putrefação da epiderme de Sig-fried, onde foi gravada a ferro incandescente uma marca em “F” de frihed, de Frirredo, de fujão, da For-ça.
E noutra vez em que voltou àquelas terras – a quinta, ou a sexta, ou a décima, Nuno não se lembra-va – já conhecia os direitos, os direitos das gentes, dominando no próprio intelecto, um arcabouço filo-sófico robusto, os jusnaturalismos que aprendera com o professor Mundurucu, e reivindicou o apoio do suposto sogro no processo eleitoral em que intentava ser consagrado representante legislativo dos interes-ses de Jicamaranga e de alguns outros distritos vizi-nhos na capital, onde estudara as leis e os direitos universais das gentes, onde passou a ter dúvidas so-bre o que legitimava a posse do pai sobre todos aque-les homens, que cortavam as gramíneas, que empur-ravam os mastros da moenda trituradora, que entor-navam o caldo ebuliente dentro de tachos acalentados por fogos infernais, que às vezes tragaram um ou ou-tro homem daqueles, que vestiam sobre as espáduas amplas, molambos de algodão encardido, que sempre tinham sobre a pele, queloides, hiperplasias que mar-cavam, além da propriedade do seu pai sobre seus fados, indolências e insolências – hipostasias que fal-sificavam o que, de fato, eram marcas epidérmicas de inconformismo, de resistência, de espasmos ontoló-gicos e desesperados de energia vital, dos quais a História mal podia ser contada. Dúvidas sobre a pos-se de homens que seriam herdados por ele e pelos seus irmãos, dois deles com as epidermes mais escu-ras que a dele, que era da cor de um tição em brasa, como patrimônio, como máquinas, como bestas labo-rais, pois era ele filho de um senhor do açúcar, do mesmo açúcar que lhe pagou os estudos sobre os di-reitos naturais do homem, como a liberdade imanen-te, intrínseca ao mais primevo testemunho dos senti-dos e negada, por sua vez, àqueles homens, cuja da-nação era fabricar açúcar, o açúcar com cheiro de flu-xo sanguíneo, cujos clarões do fogo das geenas do seu fabrico ilustraram as ideias de Nuno e lhe desequili-braram os fluxos neuroquímicos de uma vez por to-das, ao ponto da paixão violadora. Mas não bastou a Nuno a doce ilustração, pois lhe negou o apoio vee-mentemente, o Coronel Frirredo, preterindo-o em nome de outro que não fosse filho de uma oitavona, que não fosse irmão de dois negros, que não fosse cunhado de um negro, que não tivesse sido filho de uma negra, da mãe que não matou, a mãe que o amamentou, que não defendesse abolições de ne-nhum tipo, que não viesse de terras que lhe impu-nham desvantagens comparativas e concorrenciais nos negócios açucareiros, enfim, um que fosse o filho de uma prima de outras paragens, que além de lhe tomar a posição política, que considerava seu próprio direito imanente, intrínseco, natural, primevo despo-saria, em mais um processo endogâmico, aquilo que Frirredo preferia chamar de eugenia matrimonial, a filha desse homem, Mariana, aquela que fora destina-da a Nuno, como uma imprecação autoimposta, a ser o amor da sua vida, ele assim hoje acredita.
E pelos mesmos caminhos que tomou de volta à casa naquele dia, atritando ora o massapê do chão, ora os matinhos, iluminado pelo clarão celestial, che-gou ao topo de uma elevação orográfica e do lado oposto àquele por que viera, observou as terras do pai, a grande casa branca, as antigas senzalas de taipa, as recentes construções da vila dos manumissos, a casa do engenho e o eito canavieiro, que agora toma-ra corpo, verdejando que nem grama o deserto em-pretecido de varas raquíticas de antes e que agora se dispunha por uma sequência viçosa e ondular de mor-ros infinitos, nem tão altos assim, e sentiu o calor das fornalhas sob os tachos de caldo de cana e o cheiro de melado do cozimento daquele fluido dulcíssimo, co-mo não sentia desde muito antes do tempo que ante-cedeu a sua ida à capital, onde conheceu aquela atriz que vira no teatro, da qual o nome jamais esquecera, que lhe vaticinou o aniquilamento, quando chegasse o dia em que a abandonasse, o dia em que a desde-nhasse, num quarto nupcial naquela rua de ladrilhos cinzentos onde perdeu a castidade do intelecto de herdeiro de senhor de engenho, no mesmo quarto decrépito de uma pensão, onde perdeu a castidade da alma, com aquela atriz, cuja mais luxuriante e mais terrível hipocrisia era o amor, aquela mulher que alardeou a todos, com voz altissonante na primeira vez que Nuno a amou, aquela que dentre as deusas era a mais terrível, a mais afrodisíaca, ao punir o seu desdém. E daquele cocuruto, também viu a capela, onde fora batizado, ele não se lembrava disso, junto com a irmã e onde foram também batizados em outra cerimônia litúrgica, depois, Ismael, novamente, de-pois de ele já ter escutado o azam quando recém-nascido, e Lázaro, agora num ritual de iniciação, além da onomástica, o qual havia, ainda em seu continente natal, substituído seu primeiro nome, aquele revelado pelos gritos agoniados da sua mãe sanguínea, aquele nome que o malfeitor que o carregava no colo ouviu, mas que ninguém nunca soube qual era. Nuno entrou na capela, e o feixe mágico que iluminara o seu cami-nho até ali, direcionou-se ao caixão, onde a sua mãe jazia. Aproximou-se, e subiu no catafalco para obser-var dentro do recipiente, o rosto da mãe, Branca, que um dia tomara o açoite da mão de Libório Cipoador depois de esse já ter feito dois talhos nas costas de uma mocinha recém núbil, que trabalhava na casa grande, sempre dormindo num quartinho na casa anexa sem janelas para ser chamada mais facilmente para executar algum serviço doméstico nas madruga-das, numa dessas, para ser facilmente violada en-quanto servia o corpo ao pai de Nuno, e que tinha um dia se esquecido de fechar o portão do galinheiro, onde uns cachorros devoraram três galinhas já deca-pitadas e depenadas a serem servidas numa galinhada ao molho de sangue, o jantar daquele dia na casa grande, a ser consumido pela família de Nuno, junto a uns conhecidos do pai que estavam ali em visita de negócios. Ouviu, então, passos em aproximação, bem como murmúrios chorosos, que lhe avisavam para não estar naquele lugar. Percebeu um espaço por bai-xo do manto rendado que cobria a estrutura funerá-ria, onde uma criança caberia perfeitamente, como coubera ele, junto à irmã, concebida em outro óvulo, no ventre materno, o qual ele queimaria como um tição vermelho em brasa, enquanto chegava à luz. Ele entrou e lá permaneceu, fitando pelos vazios da trama do tecido, a imagem da Virgem suspensa no alto da parede lateral da capela, vestida com um manto cião até os ombros e um véu branco sobre a cabeça, que o fitou de volta com um olhar de terror petrificado e obsessivo, como se lhe suplicasse, como se lhe pedis-se clemência, como se lhe exigisse que parasse a For-ça que agora manejava apaixonado, a Força que agora a submetia. Logo abaixo do objeto sagrado, precito por ser tão puro, danado por ser tão inocente, a Vir-gem, viu o pai que se sentava num banco da capela, ao lado de Helena, cujas feições ele não pôde definir. Ismael se punha logo atrás, com vestimentas solenes e olhar aturdido, usando uma das mãos para alisar a escápula da irmã, sua esposa, e a outra para afagar o ombro do pai, não achando o conforto que talvez pro-curasse. Esse último tinha um olhar vazio sob pálpe-bras caídas, acompanhado de um sorriso conformado, escondido atrás das barbas. Ao notar a ausência do outro irmão, perguntou a Ismael: “E Lázaro? Onde está? É o enterro do nosso pai”. O cunhado o encarou com feições inertes e lhe respondeu com um tom na voz que Nuno entendeu maligno: “Sumiu sem deixar rastro ou dar notícias depois. Faz duas semanas, já. Não leu isso na carta de Helena?”. E Helena correu na sua direção, com os olhos de íris castanhas muito abertos, espantada, aliviando a expressão corporal, quando o abraçou e lhe disse “Pensávamos que não tinha conseguido entrar no trem, Nuno. Ficamos de-sesperados com a notícia, até que ninguém o achou, nem entre os mortos. Graças que você está bem! Por onde andou?”. Mas Lázaro já se sentava ao lado de Ismael, por trás do pai e da irmã, vestindo uma cami-sa escura e com as calças sujas de lama, a mesma la-ma cinzenta que sujava discretamente a barra do ves-tido preto, que simbolizava o nojo de Helena, em um contraste do mesmo tipo daquele que manchou a roupa branca que Lázaro vestia, depois de levar uma queda dentro de uma poça de lama escura, enquanto tentava escapar, gritando por socorro e sem ser acu-dido por ninguém, daquele valentão, duas vezes mai-or que ele, que só foi parado quando o pai de Nuno e Lázaro, aquele cuja alma não tinha cor definida, de-pois de sair correndo da mercearia, em meio ao mar de transeuntes que muvucavam a feira naquele dia e que em nenhum momento pensaram em ajudar uma criança que era agredida e perseguida por um adulto violento e ensandecido, gritou na sua direção, bran-dindo o medonho açoite de Libório Cipoador. E Nu-no então percebeu, que apenas ele não participava daquela reunião em que figuravam o pai, a irmã e os irmãos, os que lhe restaram da família, depois da morte da mãe, que jazia agora dentro de um caixão sobre a sua cabeça. Percebeu também a aflição do pai, que questionava a todos que entravam na capela sobre o seu paradeiro, e aí ouviu o pai, assim que passou pela porta do templo, onde se velava o corpo inanimado. Caminhou até o primeiro banco da fila, onde Ismael e Helena se sentavam, ambos chorosos e, depois de os abraçar perguntou por Lázaro“talvez ele volte um dia”, ele disse. Olhou então a parede e recebeu olhares deprecantes da Virgem, que gritou um grito monotônico, desesperada, vítima de uma paixão. E saiu de onde se escondia, ao notar, por sua vez, o desespero do pai, de um ou outro familiar per-dido, de alguns comensais da fazenda e mesmo dos trabalhadores da casa e dos eitos (alguns poucos), que foram autorizados a acompanhar o velório da mãe postiça dos quatro irmãos de leite, ao qual nin-guém da vizinhança, nem da sede do distrito de Jica-maranga compareceu, educadamente, daquele jeito cordato que se conhecia muito bem aqui nesta terra, agora neste tempo, recusando-se a participar dos ri-tuais de passagem do corpo e da alma de uma mulher negra, alegando com eufemismos que se lhe ignorava a causa mortis, que poderia ter sido uma doença con-tagiosa, mas que na verdade fora um câncer, uma bo-lha tumorosa, faminta e implacável, que a Branca to-mou, oculta e sorrateiramente, exceto quando ela o sentia em espasmos agudos e lancinantes no baixo ventral ou em hemorragias genitais, que se tornaram mais frequentes com o passar dos anos, o ventre ou-trora fértil, no qual nenhum daqueles seus quatro fi-lhos tinha sido gerado, do qual nenhum deles tinha saído.
E quando olhou o rosto da mãe, tão lindo, tão lívido e sereno, Nuno se lembrou do dia em que uns elementos da guarda de Inocêncio Frirredo o levaram no lombo de um cavalo de volta a sua mãe, que já se desesperava com um desaparecimento de quase três dias, depois que ele se perdeu dos irmãos numa ex-pedição às ruinas da casa grande assombrada que fi-cava na propriedade vizinha, já abandonada há déca-das, já sem algumas das paredes, com teto faltoso no cômodo onde eles ouviram gritos de horror de uma mulher, que ele viu, vestida com uma camisola, re-cém-saída da água, cuja tensão molhada das vestes se grudava às carnes, deflagrando em marcas úmidas a volúpia do corpo; a qual o chamou de meu amor, en-quanto os outros três saíram em fuga apressada, dei-xando-o ali com aquela mulher cujo formato calipígio lhe impressionou e lhe tragou como o canto de uma sirena, uma mulher em semi-forma de ave negra e canora que lhe chamava com piados estridentes pelo nome, os quais respondeu com seu ímpeto incipien-temente másculo de uma criança outrora e até ali, involuntariamente casta, que invadia o corpo daquela mulher, que cantou uma melodia volumosa, ofegante e intermitente, ele escutou. E Branca, Dona Branca, enquanto o via se aproximando dos seus cuidados novamente, mudou a feição assombrada para uma de alegria terna e quente e materna, a que sempre teve no rosto, desde que ele, pela primeira vez a viu, agar-rado ao seio nutriz do qual jorrava o leite que lhe ali-mentou e alimentou seus três irmãos, no leito que o pai tinha lhe oferecido, à sua mãe, na casa que passou a habitar, depois de adotar, com a Força do seu suco lácteo, aquelas quatro crianças vítimas de orfandades diversas, às quais amou como se fosse a mãe, em vez de amar o próprio filho sanguíneo, morto sem nunca ter tomado o seu leite. Nuno lhe tocou o rosto, a fim de o animar e de lhe extrair o sorriso largo que ela sempre tinha na face, enquanto o olhava, enquanto olhava os irmãos, mas não obteve a resposta preten-dida, pois sua mãe jazia morta, naquele caixão sobre o mesmo catafalco em que estava o féretro que conti-nha o corpo inanimado do seu pai, que agora se ilu-minava pelo holofote que o perseguiu até a entrada da capela; aquela luz impura, repleta de uma poeira de material indefinível, cujos objetos se suspendiam no ar, ora em vórtices, ora em quedas, ora em ascen-sões fantasmagóricas. Encarou então o rosto daquele que agora não era mais o seu pai, mas só um corpo, um cadáver, um espólio de matéria orgânica preen-chido de bálsamos tanatopráxicos, uma cara branca que dava sustentação a uma camada saturada de pó de arroz, vestido com um costume branquíssimo, en-gomado com a mesma substância, feito de linho im-portado, talvez de um vale inaudito, que seriam fago-citados por microrganismos funestos aos quais alguns chamam tempo, exceto os ossos, sob aquele chão ne-gro e opimo, onde se fincaria uma lápide de mármore com o nome do pai, entre uma lápide, cujo epitáfio era “Aqui jaz Branca, a mãe de todos os meus filhos” e outra, em que se gravou a cinzel o nome da infeliz progenitora de Helena e Nuno, e a que nunca fora nutriz dessas crianças, incendiada outrora por ele mesmo: Alexandra, o seu prenome.
E ainda estava atracado à sirena negra e volup-tuosa, quando ouviu a voz de Ismael, que se espalha-va pela casa de paredes putrefatas, tomadas por uma vegetação agressiva e umbrosa. Então a amante se lhe desvencilhou, correndo em pressa, mergulhando e nadando até onde ele não mais pode ver e o que ele enxergava agora, em meio a um feixe da lamparina que seu irmão carregava, era a voz que vinha de Is-mael. E ouvindo, já muito fugazes, os cantos daquela sirena que o possuíra, que o amaldiçoara, saiu daque-le lugar descontinuado e espectral, seguindo Ismael por caminhos onde nenhum dos dois já tinha estado, e onde começou a cair uma chuva de pingos pujantes, que lhes encharcaram as roupas, o que não lhes fez, nem faria desistirem da caminhada que os levasse à casa grande e branca que habitavam, junto de Branca, junto do pai e de Helena e Lázaro, seus irmãos, que sempre desapareciam, que desapareceram quando Nuno ouviu, naquela expedição às terras assombra-das, ou em uma outra vez, os gritos de uma mulher horrorizada, naqueles cômodos decadentes, que pres-cindiam agora de propriedade, que prescindiam de nome, porque já tinham no próprio sintagma, um adjetivo ameaçador, pois, diziam os mais velhos, es-tavam sob o controle de fantasmas dos outrora vivos que habitavam sob tormento indizível aquelas terras, dormindo nos casebres a que chamavam de senzala, normalmente trancafiados, até o dia em que tudo pe-gou fogo, no momento em que começou a guerra sa-grada contra os fantasmas dos outrora vivos que também habitavam e mandavam naquelas terras, mas naquela casa grande e branca, com leitos cobertos com algodão, vindo de outras paragens ou mesmo do sul, onde agora possivelmente estava, se não tivesse já morrido, a mãe inominável de Lázaro, a casa que agora mal tinha paredes ou teto e que agora era o epicentro do campo de uma batalha entre sombras, indefinida, infinita. E iluminado pela luz da lamparina de Ismael, seu irmão, nascido de outros pais, mas alimentado pela mesma mãe, Nuno caminhava em meio ao desespero vocalizado por vozes profusas, em meio ao suor que jorrava dos corpos e pingava ruido-so contra o chão sem qualquer pavimento mais sólido do que os cristais de areia e do que o restolho de al-venaria e pedras e de telhas de barro que um dia co-briram o teto daquela casa, em meio aos ruídos metá-licos de foices, quando essas se encontravam com algum objeto sólido como um caule de cana-de-açúcar, ou mesmo outra foice, em meio aos estampi-dos pegajosos dessa mesmas foices, quando as lâmi-nas sanguinolentas encontravam as carnes humanas que se evanesceram naqueles espectros, que agora litigavam, em nome das suas certezas inexpugnáveis, tomado pela quentura onipresente do fogo vital que lhe era entranhado, quando ele ouviu novamente a voz de Ismael, iluminado pelos feixes da luz que emi-tia um fogo bruxuleante no meio do que se podiam contar como três, talvez quatro, casebres de taipa, cobertos com palha e em torno do qual se reuniam umas pessoas estranhas, e sobre o qual, essas pessoas assavam algum bicho morto, que exalava um cheiro agradável de comida, e bebiam um líquido transpa-rente, cujo odor adocicado e etílico chegava ao nariz de Nuno, junto dos vapores herbáceos e invasivos que saíam dos cachimbos daquela gente, que agora estava em um folguedo, batucando tambores num ritmo inebriado e dançando livre e satisfeita como dançara Helena naquele dia à beira do riacho, cavilosa por ser mais empertigada do que os seus irmãos ho-mens. E Nuno seguiu Ismael, enquanto o irmão ca-minhava na direção daquelas pessoas, que pararam a música e brandiram foices impetuosas, os homens e as mulheres, em resposta à presença repentina e obs-cura daqueles dois vultos vestidos como filhos de se-nhor de açúcar, as foices que logo baixaram por serem esses dois filhos tão novos e aparentemente tão do-ces, um deles de pele mais escura e outro da cor de um tição em brasa, como assim disse uma velha de tronco arqueado para frente, depois de se levantar dum banquinho feito de um pedaço de tronco de ár-vore em que se sentava e que logo embebeu Nuno com uma infusão de água de colônia que ela consa-grara com rezas e fuligem de incensos herbáceos so-bre os quais ela jogara encantamentos; um banho purificador e exorcizador da maldição que lhe impu-sera Mariana, que deveria lhe salvaguardar comple-tamente da maldição que lhe rogaria um dia aquela atriz, tão magna, tão bela, tão apaixonante. E depois do banho, ambos receberam um prato cheio de inha-mes amassados e uns pedaços suculentos de peixe cozido sobre aquele braseiro incandescente que emi-tiu os feixes que trespassaram os troncos arbóreos e iluminaram, atraindo-o, Ismael, sobre quem também, antes, jogaram um banho de água de colônia sagrada. E comeram e foram abençoados e dançaram em torno do fogo sob a hospitalidade daquelas pessoas, que baixaram suas foices e tentaram proteger Nuno das maldições que agora o tomam como um páthos afro-disíaco e definitivo sobre aquela moça, cujo pescoço virginal está circundado por suas mãos.
E depois de descer o morro que se erguia en-vergonhado sob um céu preto absoluto, iluminado pelo novilúnio, chegou à capela e lá entrou nos braços da mãe, pela primeira vez na vida, invadindo a atmos-fera trevosa que só se atenuava pela luz em forma de uma redoma avermelhada que o velório emitia, dis-posto em castiçais pregados nas paredes dos dois la-dos, alguns próximos à estátua da Virgem. Formas fluidas gritavam barulhos inaudíveis, ele escutou, e se movimentavam num ritmo bruxuleado, ele viu, em todas as partes daquele lugar, aumentando e dimi-nuindo de tamanho, horrorizando-o, perseguindo-o e o cercando, como maus atores em um hipocrisia cor-poral, cujos gestos variam entre erráticos e indecisos e impetuosos e decididos, os quais esses hipócritas não controlam e apenas os executam como as únicas respostas possíveis aos ditames de alguma Força que ora parece inepta, ora parece inexpugnável, mas que sempre é fatal àquele que a maneja ou àquele que a Ela é submetido. E Nuno, em tentativa corajosa, mas inútil, buscou os olhos daqueles espectros, porém suas faces eram enevoadas e sem quaisquer contor-nos visíveis, desprovidas de máscaras ou de quais-quer expressões; das máscaras que ele e seus irmãos usam enquanto açoitam Libório Cipoador, com o seu próprio cipó com dentes nas pontas, confeccionado para causar ainda mais dor nas suas vítimas, enquan-to jogam no corpo do capataz uma substância residu-al dos alambiques de Hélio Negão, que causa ao fací-nora dor exasperada nas feridas abertas nas costas e nos membros, pela Força que as crianças manejam usando aquelas máscaras que conspurcaram as faces pueris daqueles quatro irmãos, definindo-lhes nos rostos cândidos, sorrisos malignos e inclementes e surdos, pois os gritos de Libório foram ainda mais altos do que os de Hélio Negão, que, de tão velho, nem conseguiu um mísero espasmo de energia vital para vocalizar um murmúrio ou qualquer coisa que pudesse ser chamada de som e expressar seu sofri-mento, que poderia ter sido ouvido pela mãe, já mui-to doente, ou pelo pai, que viria em socorro de Hélio Negão ou de Libório Cipoador, aquele a quem ele pagava o trabalho atroz, semanalmente, com umas moedas e uma garrafa de cachaça, aquele a quem o pai dera a prerrogativa de agredir as costas dos pre-guiçosos e dos atrevidos, mediante um contrato de trabalho livre, aquele de quem o grito, o pai não escu-tou, pois já era tarde e o alambique ficava afastado da casa grande e branca, onde o pai dormia tranquilo sem nunca ter ouvido o estalado dos cipós nos cor-pos, o tilintar estridente dos grilhões de ferro, os gri-tos de dor, os gemidos de Hélio Negão. E a consciên-cia de Libório está em outro lugar, enquanto ele é carregado pelos membros inferiores, arrastado pela relva, pela areia cascalhada até o mastro onde tinha amarrado Hélio Negão na manhã de ontem, onde ele foi amarrado, ainda apagado, onde ele foi encharcado com um betume viscoso que alguém arranjou na casa das máquinas e onde ele recebeu uma fagulha da pie-dade de Nuno; uma fagulha que logo se apagou pelas chamas que incandesciam o mastro e queimavam o corpo, ainda vivo, não por tanto tempo assim, porém silencioso. E no silêncio poluído pelo crepitar da ma-deira em chamas, pelo arrulho dos escapamentos do material derretido das glândulas sebáceas de Libório Cipoador, pelos estampidos corporais das crianças na dança evocativa que executaram ao som de uma can-tiga, com a mesma melodia da toada que cantou Li-bório antes, ao redor daquele fogo purgatório e por uma fumaça primeiramente densa e branca, depois negra e rarefeita, Nuno pensou na alma do pai, que naturalmente teria dificuldades em ascender aos céus e encontrar a da sua mãe, aquela que matou quando nasceu, e que agora jazia dentro da capela tenebrosa, aquela de quem ele, seguido das suas representações distorcidas pelas luzes cambaleantes das velas, cami-nhava ao encontro para lhe ver o rosto num talbótipo emoldurado e pregado na parede branca da sala da casa grande, o rosto que era cercado por um velório eterno, cujas chamas eram alimentadas obstinada-mente por Branca, a mãe que nunca teve a chance de matar e cuja alma certamente estava em um lugar aonde o pai (a alma descolorida e embaçada do pai) teria dificuldades de chegar. E quando subiu no cata-falco, cessaram todos os responsos daquelas sombras, que se evanesceram como a fuligem disforme das ve-las, e tudo se iluminou pelo fogo original que vinha do baixo ventral da mãe, do mesmo lugar de onde ele saíra, brasil, e a partir de onde se alastrava saindo inexoravelmente, queimando primeiro o caixão, de-pois a capela, a casa grande e branca, seus irmãos e todos os escravos e todos os pés de cana-de-açúcar, arrasando o que tocava, transformando tudo em pó, em morte e em açúcar carbonizado.
E do seu lado, sentou-se um rapaz, equiparado a ele em idade, com a cara rosada, que se apresentou como Pedro Cavalcanti e dispôs uns papeis e um tin-teiro sobre a mesa da escrivaninha que os dois dividi-riam desde aquele dia na aula inaugural na faculdade, uma aula presidida por um homem senil e corpulento, que vestia uma beca preta por cima de uma camisa branca, adornada com um jabor branco em volta do pescoço provavelmente tão rosado quanto a cara, e passeava estrepitoso sobre um tablado no centro de um auditório, emitindo sons ocos do choque dos pés bem calçados com a madeira, emitindo um oratório prolixo de que Nuno nunca mais se lembrou, exceto do trecho em que um dia ele afirmava a supremacia de um arcabouço de leis naturais que justificavam e explicavam o progresso ininterrupto da ciência, que se finalizaria no branqueamento das peles da nação, num momentum econômico, social, espiritual e bio-lógico não muito distante no tempo; um futuro sem as marcas da mistura, um futuro no qual estarão mor-tas e esbranquiçadas as lembranças de homens que um dia ali foram escravizados; e aquele homem tão bem becado ainda afirmava, com o queixo erguido da empáfia, a sua pia crença no sucesso de um processo inexorável (a marcha vucovoleante da história), pro-cesso em cujo final estava à espera, a civilização total dos homens e mulheres daquela nação que os conti-nha, e no meio desse caminho tão sagrado, uma cida-de ímpia calcinada, coberta com dezenas de milhares de cadáveres de homens decapitados depois da morte em combate e de cadáveres degolados de mulheres e crianças e velhos, que se saponificarão em poças rasas de água, que se mumificarão sob o sol terrível, mas todos esses uns obscurantistas, liderados por um tal Messias, cuja cabeça será exposta, depois de dias de putrefação sob aquela terra de futuro tão promissor, como um prêmio a coroar (óbvio, era uma cabeça decepada!) a vitória brasil e incontestável da razão, da ordem e do progresso. Mas Nuno dessa vez se lembrou de lhe replicar, usando uma argumentação embasada na anti-ciência que aprendera e que negava as certezas científicas do professor, que hierarquiza-vam os homens com mimeses filosóficas espúrias, com dogmas teológicos velados, com uma teleologia, por que não uma escatologia, expressa em um reduc-tio ad absurdum anacrônico desde antes da sua pró-pria gênese até depois do seu momento derradeiro; de uma redução do tempo à infinita insignificância temporal da experiência dos homens, de uma redução da experiência a um cronograma fatídico, que se ar-rasta deixando um rastro purulento e pegajoso pelo caminho, como um coacervado se arrastando sobre uma tábua taxonômica, nível a nível, tudo isso sob o condão moralista de homens que escolheriam pe-remptoriamente um calendário de papel em vez do caos para inteligir o tempo e que com a absoluta cer-teza da benevolência das próprias intenções escravi-zariam um selvagem involuído, parado no tempo, ou-trora condenado à desgraça da incivilização; e eram as mesmas falácias que justificavam e garantiam a presença de Nuno naquele lugar onde poderia estar Lázaro, se esse não fosse o objeto de observação de toda essa ciência falaz, se não fosse a cor que lhe abundava na pele, o mal protéico e preto a ser diluído pela passagem do tempo e das gerações, pela impor-tação de brancos infelizes de algures, pelas endoga-mias eugenistas do tipo que praticaram os ancestres de Inocêncio Frirredo havia tempos. Lázaro, o bebê arrancado dos braços da mãe desesperada e trazido às terras onde se tornaria o mal a ser expurgado pela melhor e mais avançada ciência que iluminava aquele lugar, um antro da ilustração, e onde estudava Nuno, da cor de um tição em brasa, que não apenas replicou com negações o discurso, mas se levantou, ampliando as espáduas e brandindo um livro, vociferando com olhos medonhos e escancarados, fazendo gestos mi-nazes, até ser contido por Pedro Cavalcanti, o seu colega de banca. E essa insolência lhe custou alguns dias, solitário no ergástulo da faculdade, solitário ao ponto de ser proibido de levar qualquer livro ou rece-ber visitas; no ergástulo onde recebeu, enquanto lia um jornal que deixara oculto sob a camisa, a visita do mestre Émille Mundurucu, aquele senhor tão sobran-ceiro que trocara a casaca magistral por um uniforme de guerra e que, com fervor marcial, começou o relato dos eventos da época em que serviu nas hostes de um exército libertário, numa ilha onde infernos verdejan-tes cresciam sob a abundância fotogênica do sol, so-bre o chão negro, molhado e fértil, de água, de suor e de sangue, para deles se produzir açúcar, mas uma terra que não era aqui, o lugar e o tempo onde se pas-sa a amaldiçoada história de Nuno e dos seus irmãos e do distrito de Jicamaranga, numa Revolução libertá-ria de fato, um empirismo avassalador de todas aque-las hipóteses, teorias e filosofias de que Nuno se ilus-trou, lendo-as em livros e jornais escritos por homens pretensamente iluminados que vendiam e compra-vam outros homens ou que tiravam os proventos pa-ra financiar as suas boas vidas dos produtos do traba-lho desses homens, que não recebiam nada, exceto uma alimentação paupérrima, uns panos malfadados que lhes cobriam as vergonhas e golpes de chicote no torso e nos braços e nas pernas, quando não mutila-ções, que justificavam condenações à mendicância, à loucura até o dia da morte por inanição, por não lhes valerem (aos iluminados e seus próceres) mais nada, pois já nem poderiam erguer a foice para decepar ca-na-de-açúcar ou nem mesmo com as próprias mãos debulharem dos capulhos o algodão branco nas terras daqueles semelhantes de homens tão bem intencio-nados e tão evoluídos. E o professor, com as vestes de um guerreiro, começou a sua narrativa, num francês que Nuno poderia entender, mas que eu, o narrador, traduzirei para esse português de estilo tão limpo e tão objetivo que tenho utilizado aqui desde o início dessa narrativa, a fim de que Vossa Mercê não preci-se recorrer aos seus conhecimentos da língua france-sa. Abram-se as aspas, então:
“Tudo começou com uma missa num bosque liderada pelo sumo sacerdote, que se cobria da cabeça aos pés, com a pele de um jacaré, abatido por seu ca-jado fantástico, depois dissecado e submetido a um processo encantado de taxidermia; o mesmo cetro que ele usaria para destroçar o crânio do porco que, depois degolado, teve o sangue oferecido em sacrifí-cio às entidades obscuras da justiça, que em réplica se indispuseram a aceitar aquele sangue ímpio, prefe-rindo a esse, sangue de gente, mas de uma gente que se vestisse como aquele porco. E sob os auspícios das ordens que recebera o nosso guia, a sumidade ponti-fícia, por meio de quem falavam as entidades obscu-ras da justiça, homens capazes, divos comandantes, organizaram um exército e a mim coube liderar um batalhão de guerreiros, que deveria sair do bosque e queimar tudo que estivesse sobre aquelas terras ver-des e infernais de onde jorrava açúcar. A minha mis-são já tinha um lugar definido: a plantação onde por dias e noites infinitos trabalháramos eu e tantos ou-tros, sob os olhares homicidas de capatazes, sob o sol que esturricava a pele, cortando e carregando cana no lombo, mesmo quando o sol esfriava e desaparecia no horizonte vermelho, com os eitos iluminados pelas luzes fugazes de fogos-fátuos de um terreno contíguo, que brotavam do chão como miasmas incandescen-tes, o chão onde se cavara uma vala enorme e única e quase sem fundura, onde tantos homens mortos eram jogados, para que as carnes apodrecessem e os fluidos fossem absorvidos pelo negrume da terra, sem que ninguém da família que mandava ali, que sempre mandara ali, tivesse que dar satisfações em suas pre-ces e rezas, ainda que fosse a uma divindade, ou a Deus, já que Esse não era o deus daqueles colhidos; e ainda que às vezes, o cheiro mórbido de carne de gen-te em putrefação fosse levado por brisas até aquela casa grande, até os seus narizes apontados pra cima, tudo poderia ser desinfetado pela fumaça de incensá-rios consagrados por seus sacerdotes e pelo perfume do açúcar. Aquela plantação de onde eu fugira, depois de estripar um capataz que se descuidou do seu alfan-je, o capataz que me retalhara as costas, deixando nelas marcas mais escuras que a minha pele.
Eram os habitantes daquela casa, quinze: dois velhos agregados, parentes do dono, e o pai do dono, já com uma demência avançada, mais uma tia da do-na, o dono, a dona, dois adolescentes púberes, duas moças núbeis, sobrinhos dos donos que ali passavam alguns dias, vestidos com o mesmo desdém, com a mesma empáfia pálida, e os cinco filhos, três moças e dois rapazes, que iam dos dezesseis aos sete anos de idade. As terras ficavam por trás de uns montes bem arborizados e sombrios, onde minha tropa armou barracas e ficou oculta e silenciosa durante a clarida-de sob o céu índigo, esperando a escuridão se fazer nos céus, para avançar. Mas ainda no crepúsculo, na-quele céu de uma tinta encarnada como nunca eu vi-ra, gritos medonhos começaram a subir, vindos da-quela propriedade, onde fogo verdadeiro já se alas-trava virulento e lambia os canaviais. Formamos em batalha e descemos o morro em direção aos alaridos e passamos no caminho por mais de uma dezena de cadáveres, alguns destroçados, nos quais enxerguei rostos agora inofensivos, cujas pálpebras já se fecha-ram para sempre, ou mesmo rostos cujos olhos homi-cidas se arrancaram das cavidades oculares por alguns daqueles homens que já aderiram à sua própria revo-lução interior e libertadora e que os guardaram como amuletos ou espólios de guerra, dentro de vasos transparentes que continham o rum que a tudo con-servava, e eu vi esses olhos, todos verdes ou azuis, mergulhados em um substrato aquoso vermelho in-tenso! E perto da entrada da casa grande, ao redor do mastro onde se prendiam os escravos para sevícias, homens se reuniam ao redor do dono, que não era mais dono de nada, agora amarrado, com o torso ro-sa, que nem o porco sacrificado, nu, cujo rosa já era manchado com listras vermelhas e disformes, pois disforme é a forma do sangue quando ele sai do cor-po. Alguns carregaram aquele frangalho de gente, já quase inerte, até a frente da casa grande, onde se pendurava uma corda paramentada com um laço na ponta, o qual puseram em torno do pescoço do dono, que nem na própria vida mais mandava, e dois ho-mens postados na varanda do nível superior da habi-tação, começaram a puxar. E isso provocou uma rea-ção daquele homem, nesse instante já um fantasma, que agora, enquanto era suspenso pela corda que o enforcava, começava a se debater em vórtices deses-perados em busca de um sopro do ar que nunca con-seguiu respirar, e por isso não pode dar nem um murmúrio suplicante, nem o suspiro que antecedeu a morte.
Então, entrei na casa, e na sala, sob a luz errá-tica de velas em castiçais de metal reluzente, que, um a um, iam sendo recolhidos pelos agora guerreiros da revolução e pelos homens da minha tropa, para servir de financiamento aos esforços do movimento libertá-rio, bem como outros espólios valiosos, passei por um corredor de homens que brandiam lâminas con-tundentes e tingidas de um vermelho nefando, que cintilava à luz daquelas velas, lâminas do tamanho de um braço, que vigiavam todos os habitantes da casa grande, velhos, mulheres e crianças, que ainda per-maneciam vivos, vestindo trajes muito bem talhados. Duas mulheres, vestindo molambos, conversavam com eles ternamente, como se os quisessem acalmar, como se os pudessem convencer de que a violência já tinha cessado, pois só o dono e os capatazes mereci-am aquele destino atroz, a morte ou até o vilipêndio dos olhos, como se não tivessem essas mulheres, que eram praticamente daquela família a quem serviam desde crianças, ouvido as demandas que as divinda-des obscuras da justiça tinham sussurrado nos ouvi-dos de Cabeça de Jacaré, o sumo sacerdote. Ordenei que elas se despedissem de todos os seus quase fami-liares e elas obedeceram, permanecendo na sala, pois as obriguei a isso. Destaquei sete mosqueteiros e perfilei, encostados numa parede branquíssima de tinta calcária, aquelas quatorzes pessoas, dois a dois, pois assim se economizariam, à metade, os projéteis dos fuzis. Então disse que apenas um dos homens atirasse – um teste era prudente – em um dos pares e, feita a obra, o resultado era uma mancha de textura indefinida esparramada na parede branca. Mas a mancha era tão pequena, que logo entendi que seria insuficiente para saciar a sede de Cabeça de Jacaré e a sede das entidades obscuras da justiça, a quem todos, então, servíamos. Dispensei meus guerreiros do ser-viço, embora tenha lhes dado ordem para que teste-munhassem aquela expiação, e convoquei os homens que guardavam a sala empunhando facões e lhes or-denei que degolassem os doze que restaram, um a um, sobre um santuário que ficava no fundo da sala, a fim de que o sangue jorrasse justamente ali. Dos sa-cros ofícios saíram prantos que me recusei a ouvir, e aqueles heroicos homens já tinham suas espáduas desnudas e os molambos cobertos de um vermelho que cintilava livremente como teria cintilado a vida que fora negada a cada um deles até ali, bem como aos seus ancestres, chegados naquela ilha contra a própria vontade, em cortejos fúnebres que atravessa-vam, dentro de vasos mercantes, que comerciavam gente, um oceano azulíssimo onde brotava uma fu-nesta listra vermelha do sangue dos corpos de seres humanos que eram oferecidos em banquete a tuba-rões. Mas esse era outro vermelho e não o vermelho viçoso que agora fulgia o santuário e a parede antes branca, marcada por sangue de vários matizes, e que também pintava o chão, agora redivivo com o sangue purificador daqueles treze. E todos, exceto a dona, que já não era dona nem do próprio sangue, já ti-nham sido executados. Aí ressoou de um cômodo mais interno, o choro de um bebê. Murmúrios se fize-ram e eu ordenei silencio. Segui, a indicação do vagi-do e, na cozinha, uma negra de seio exposto e molha-do de leite, segurava uma criança novíssima. Reivin-diquei o rebento à mulher, que de primeira mo ne-gou. Enfatizei com um olhar ígneo a minha demanda e ela aquiesceu. Caminhei com aquele herdeiro no colo em direção à dona, que rompeu o silêncio implo-rando que o filho não fosse sacrificado. Respondi-lhe: Não se preocupe, mulher! Escravo ele nunca será. Or-denei a um dos verdugos que a levasse até a frente da casa, onde ela pudesse ver a varanda e caminhei até as escadas que davam acesso ao pavimento superior”.
Fechem-se agora as aspas, pois Nuno, assom-brado, interpelou o relato com o seguinte comentá-rio: “Mas essas pessoas – fez uma pausa – eram só velhos, mulheres e crianças”. O professor, então, olhou Nuno nos olhos e replicou “Não! Não eram pessoas. Não eram velhos, mulheres e crianças. Eram brancos”.
E enquanto ainda via aquelas últimas palavras retumbando dentro dos raciocínios, a cara branca do seu colega de bancada apareceu na portinhola e a Pe-dro Cavalcanti, ele começou a contar dos seus planos de liderar um movimento vestindo uma casaca e tal-vez um jabor, dentro de assembleias onde filhos do açúcar criavam leis, depois de as discutir, de as corri-gir, onde ele ia propor que se libertassem os homens e mulheres do doce destino açucareiro, de uma vez por todas e foi por Pedro Cavalcanti, depois do relato do professor Emile Mundurucu, que ele foi informado de simpósios semanais, em que se reuniam, uns mo-ços de corações impetuosos e bem intencionados, em uma das salas dos estudantes; uma confraria da qual ele rapidamente se tornou partícipe ativo, com argu-mentos bem elaborados, com citações em latim e em francês e referências aos temas trágicos das peças de teatro que viu antes e depois de Afrodite, naquele teatro de paredes horrendas de tão velhas, esfolados pela nojeira dos elementos, os quais alguns chamam tempo, onde se anunciavam as peças e os atores e as atrizes, onde ele viu o talbótipo com a máscara de Mariana, cuja hipocrisia era uma deusa implacável, cujo ato era a paixão violadora; uma agremiação pro-to-partidária, do qual ele se tornou um dos principais líderes, e que clamava pela liberdade negada a ho-mens e mulheres por outros homens, homens como os pais daqueles jovens, quase todos de gênese e des-tino açucarados, homens como o seu próprio pai, cuja ascensão aos céus era a dúvida a poluir os fluxos neu-roquímicos que lhe preenchiam de névoa e espuma os espaços vazios do cérebro, enquanto ele seguia até suas terras, iluminado pela torrente ilustrada que vi-nha do meio das nebulosas celestiais, pisando o chão preto e molhado, deixando para trás a composição destruída que o trouxera de volta a Jicamaranga para que ele acompanhasse os rituais funéreos em torno do cadáver embalsamado do seu pai, que agora seguia dentro do caixão, descendo o topo da colina onde se assentava a capela, onde se velavam sua mãe e a ou-tra mãe, ele se lembrou, carregado em uma das alças por Nuno, na outra, por Ismael, nas outras por uns trabalhadores da casa grande e branca, que se rever-savam, com Helena vestida de um preto ostensivo, de rosto coberto por um véu, no encalço do cortejo até a cova de sete palmos de profundidade, cavada no chão opimo do cemitério que guardava os restos mortais de todos os antepassados daquela família, que man-dou naquelas terras e no destino de muitas das mu-lheres e muitos dos homens que a pisaram, que ali se extenuaram, até o dia da morte dos seus corpos, que, já caídos, não tiveram lugar naquele solo consagrado, onde se fincavam cruzes brancas e lápides de níveo mármore, detalhando nomes e exibindo epitáfios apologéticos, como o de Branca, que ali estava, a mãe negra de todos os filhos do seu pai, o qual nunca im-pediu as sevícias dos seus trabalhadores, nem os es-tupros, nem os que ele perpetrou, mas que defendeu o seu filho Lázaro da insânia provavelmente homicida de um valentão das redondezas, o qual seu pai espan-cou sem qualquer hesitação, deixando as roupas brancas do facínora tão vermelhas quanto o sangue que tingia a poça de lama na qual agonizava, cercado pelos populares do distrito de Jicamaranga que agora estavam tão inertes quanto no momento em que Lá-zaro lhes gritou pedindo socorro, o pai que instalou Branca no leito que outrora servira às suas concubi-nas, uma delas impubescente, que lhe maculou a cas-tidade, bem como depois às suas núpcias com Dona Alexandra, a mãe que Nuno matou no parto, adotan-do duas crianças sem pai, nem mãe, cujo destino es-tava já escrito em uma pedra, o destino do cativeiro, depois o do excruciante e infinito trabalho numa la-voura ou nas outras etapas da indústria de onde saiam os ásperos cristais de açúcar, que o pai negoci-ava, recebendo em troca o dinheiro que financiou tu-do o que tinha, inclusive a propriedade daqueles ho-mens e mulheres que escravizava e de quem chicote-ava o lombo e os membros, por meio de um terceiro remunerado, daquele mesmo jeito que o seu pai fize-ra e o pai desse, e assim indo até o infinito, antes passando pelo mais antigo ancestral daquela família naquele lugar, aquele que primeiro enfiou o pau das mudas nas bainhas arreganhadas do chão ubérrimo, outrora habitado por gente que ele massacrou e es-cravizou e que construiu aquela casa branca onde Branca o amamentou (Nuno, está claro) e amamen-tou aos seus irmãos e onde ele matou a própria mãe queimando-a por dentro. O pai, que morta a mãe de todos os seus filhos, caiu na confusão dos seus pró-prios raciocínios, abandonando dia após dia os cui-dados dos quatro filhos mal iniciados na adolescên-cia, as responsabilidade na administração dos negó-cios da sua terra, o que lhe garantia o sustento e aos seus irmãos, e aos seus pais e mesmo a todas as vidas que habitavam até que as varas caudalosas perderam primeiro o dulçor e depois secaram quando a terra infértil parou de verdejar, exibindo o cinza daquela rua de ladrilhos onde ele cruzou com a parede decré-pita, à procura do talbótipo com a foto da atriz que vestiu pela última vez, na noite anterior, a máscara de Afrodite, dentro do quarto, sobre o tablado ressonan-te de madeira, não antes de ele escutar as suas amea-ças e a imprecação da praga congênita e recôndita que lhe desequilibrava os níveis de dopamina que lhe hidratavam o cérebro e lhe passar na cara os erros que ele cometera desde que era um feto incandescen-te a destruir a própria mãe e lhe vaticinar o seu erro mais deletério, mais inominável, que ele cometeria apaixonado e que custaria a destruição, assim é o va-ticínio que os seus sentidos agora lhe testemunham, de tudo o que ele, por momentos efêmeros, tinha achado belo naquela vida de menino de engenho, fu-turo bacharel, cujo fado era perpetuar a infinidade de sobrenomes que carregava no seu próprio nome e que carregaria o filho ou a filha que teria com a filha de Inocêncio, o Frirredo, aquele homem de olhos gélidos que comandava uma guarda de assassinos de olhos ainda mais gélidos e claros de vários matizes – ele os fitara naquele dia em que viu o homem que Vossa Mercê ainda deve estar chamando de Siegfried ser marcado com o F da Força – e que esperava o mo-mento apropriado para destruir todos os que habita-vam as terras que um dia foram do seu pai e das quais agora o irmão e a irmã cuidavam, e se apossar dos homens e mulheres a quem os irmãos tinham tratado de dar uma remuneração regular e dias de descanso, influenciados pelo próprio Nuno, um de-fensor dos direitos naturais dos homens, um apaixo-nado.
E já no pé do morro, Nuno avista a cimeira da formação rochosa que lhe encadeia os olhos e, logo à frente, o frondoso coração de negro cujas folhas escu-receram e se movimentam como um espectro huma-noide gigantesco em que ele consegue enxergar mil olhos e mil membros, que brandem um cetro amea-çador, na beira de um riacho onde notou, ele se lem-bra, na superfície, uma sequência de pedregulhos li-sos, polidos pelo tempo, alguns cobertos por uma rusga de líquens. As pedras se dispõem em uma re-doma cinzenta que não deixa escapar um minúsculo peixe tão diáfano quanto a água da qual ele agora en-che um cantil, que trazia na bolsa pardacenta, logo depois, jogando na própria cara o líquido e o toman-do em goles contínuos e escandalosos. Olha nova-mente a água e pensa naquele ser cuja pele é trespas-sada pelos raios do holofote que lhe iluminou a cabe-ça, escapando do contorno do próprio corpo como uma aura iluminada, vendo-lhe a sombra por baixo do peixe já se formando no leito do veio d’água, sem, entretanto, conseguir identificar de que material, pe-dra ou areia ou mesmo água, ou mesmo nada, ele era feito. E logo chegam fulminantes mais dois daqueles indivíduos subaquáticos que, em trio e com suas vo-zinhas agradáveis, arranjadas num coro melífluo que se prendia primeiro nas bolhinhas de ar e depois ex-plodia na superfície e se espalhava e invadia os ouvi-dos de Nuno, e começam a lhe perguntar sobre o que fazia ali e por que ofegava cachaça e por que ainda não atirara naquele porco e por que não deixava a moça ir e por que interrompera o relato do Professor Emile Mundurucu e por que fazia aquela atrocidade e por que tinha atirado com a garrucha numa criança e por que achava que achava que poderia ser o favorito de Frirredo para disputar uma eleição e por que acha-va que os homens eram iguais e por que lera aquele jornal em francês e aqueles outros livros e por que não tinha feito nada contra Libório Cipoador, depois que esse matou o septuagenário, enquanto seus ir-mãos lhe tomaram o açoite e lhe bateram nas costas e por que só olhou inerte e por que só imaginou aquela violência hiperbólica e por que só discursava sobre a fraternidade, a igualdade, a liberdade e sobre o amor, a ordem e o progresso e por que não enfrentou o pai quando esse ainda deixou Cipoador trabalhando e recebendo remuneração em pecúnia e em cachaça nas suas terras depois da sevícia e por que matara a pró-pria mãe e por que a criança em quem tinha metido um projétil de garrucha estava agora correndo e por que não respondia àquelas perguntas que o peixe fa-zia e por que ele estava ouvindo um peixe submerso e transparente, o qual sequer podia enxergar? E nesse instante, os peixes, em réplica aos seus questiona-mentos, emergem as respectivas cabeças e, em vez de puxarem o ar, como Nuno esperou, lhe dirigem a pa-lavra em uma canção de ritmo sincopado
Não é o senhor quem vai
me impedir de respirar.
Cantando, eu rejeito
Peremptoriamente esse ar
Brumado de espumas e névoas neuroquímicas,
Esse ar pestilento de cachaça vagabunda.
Prefiro o ar contido nessas águas impolutas.
O que eu quero é saber por que...”
A zoada daquele coro nefando de seres tão mi-núsculos, dessa vez livre da tensão superficial do ria-cho, tonitruou e balançou as folhas e os galhos da ár-vore, arrancou pedregulhos da pedreira iridescente e chegou portentosa aos ouvidos de Nuno, na mesma velocidade do fluxo furibundo que lhe descompensava os raciocínios, e esse, em resposta, atacou o cardume e conseguiu segurar o pescocinho de um entre aque-les seres tão fantásticos quanto todas as suas aventu-ras, apertando-o, com a real intenção de fazer o hor-ror tonítruo daquela canção cessar, mas o grito estava preso naquele instante do tempo implacável, pois o peixe sequer pescoço poderia ter. Foi aí que o bichi-nho translúcido e barulhento e desprovido da cervical, de fato, escorregou-lhe das mãos e foi embora can-tando em estribilho, ao ritmo das farfalhadas da sua cauda na tensão superficial das águas.
E com as mãos, ele envolvia, já sem manejar a Força, o pescocinho daquela que violentou, apaixo-nado. O grito cessara e as nebulosas no céu já eram uma mescla de roxo e púrpura, às vezes delineadas na parte ínfera por umas listrinhas inconstantes de ma-genta luminescente, naquele momento em que o tempo voltara a fluir. O silêncio tomava corpo com as chacoalhadas das águas passando pelas pedras, que Nuno ouvia, sem as poder definir, pois a luz já era quase vestigial. Sob o seu corpo, deitava-se o de Ma-riana, cujo rosto ele mal pode identificar, embora pu-desse se lembrar dos atos que cometera nos instantes anteriores. Mas antes de qualquer raciocínio, Nuno se lembrou de como o dia de hoje começara.
Hoje, alguns dias depois do dia em que voltava à casa definitivamente, ele se lembrou. A composição vucovucoleante acabara de cruzar o Jicamaranga, cu-jas águas naquele dia, ele se lembrava, refletiam um verde acinzentado sob um sol pujante e um céu lim-píssimo, no qual ele pode ver revoadas de pássaros multicoloridos, que subiam e desciam, num balé ene-briado, contrastando com o azul celestial profundo. Logo avistou as primeiras casas da sede do distrito e não demorou a perceber, ouvindo os estampidos dos freios da locomotiva, um bando de gente e de bicho se movimentando freneticamente na plataforma da estação ferroviária em meio aos borbotões barulhen-tos que fluíam da máquina a vapor, enevoando o am-biente e depois desaparecendo. Por trás de um dos jatos esbranquiçados, ele avista Ismael e Helena com semblantes tensos e logo os três estão montados nu-ma charrete puxada por um alazão branco e uma égua negra, equinos exuberantes, os quais lhe prendem atenção, até o ponto em que Helena começa a lhe re-latar em pormenores, a série de eventos ocorridos desde quando, alguns dias antes, numa das proprie-dades do distrito de Jicamaranga, escravos se revolta-ram e mataram a família dos seus senhores, o homem com golpes de foice, a mulher por esquartejamento, pelas mãos de três outras mulheres, outrora estupra-das pelo senhor e castigadas pela insolência, direta-mente pela senhora, outrora de corpo íntegro, com a mutilação dos seus seios, brutalizaram os capatazes, decapitando-os todos e lhes expondo as cabeças de cores variadas, todas manchadas de sangue brasil, pelo caminho que levava à propriedade, e cativaram três crianças, filhas dessa família, uma delas recém-nascida e lactante, que se alimentava dos peitos, es-ses íntegros, de uma mulher negra. E Ismael ainda disse que negociações estavam sendo levadas com os coronéis de Jicamaranga, a fim de que se preservasse as vidas das crianças, as quais aqueles homens, agora livres, ameaçavam sacrificar, caso houvesse tentativa de escravização ou de reintegração de propriedade. E Ismael ainda disse que estava em negociação com os líderes dos revoltosos, que queriam negociar o açúcar que poderiam já fabricar, pois agora detinham os meios para isso, pois agora não mais eram escravos e sim donos daquela propriedade, agora coletiva, que era assediada pelos outros coronéis locais, entre eles Frirredo, o comandante da guarda de sicários que um dia encontrara Nuno e o levara de volta às terras do seu pai, aos braços da sua mãe. E agora Helena disse que Inocêncio Frirredo estava sabendo dos maus exemplos em rompantes abolicionistas dos filhos do vizinho, um deles um negro, que agora remuneravam os escravos, que agora lhes davam folga depois de anoitecer e aos domingos, que agora deixavam os escravinhos aprenderem a ler e a fazer conta e que agora queriam ajudar a traficar o açúcar das terras que caíram nas mãos daqueles negros preguiçosos, insolentes e homicidas, que mataram uma família de gente branca porque não passavam de uns selvagens violentos, que nunca tinham agradecido àquela gente branca pelo ato benevolente que os salvou da selvage-ria do Estado de Natureza anterior àquele Estado Ci-vil que lhes fora propiciado pela gente branca em vida e lhes mostrou a benevolência do único Deus e os caminhos que a Ele levavam na morte, a Ele cuja mo-rada era num paraíso azul e algodoado, a morte que viria por exaustão, ou por alguma atrocidade execu-tada por capatazes, ou mesmo pelos seus donos, aquela gente branca abençoada por Ele, cujos corpos, enterrados sem extrema-unção, sem persignação, sem lápide, estavam agora sob o chão negro, apodre-cendo e exalando gases que alimentariam fogos fá-tuos e iluminariam noites de estrelas leitosas. E Nu-no nada responde a seus irmãos, porque ele nota a mercearia onde estava com Helena e Ismael, e de on-de saiu e caiu na lama preta que lhe sujou toda a rou-pinha branquíssima cosida e engomada por Dona Branca, sendo acudido por vários dos passantes na ocasião, naquela manhã, quando começou a escutar gritos vociferados do pai, que na rua de chão úmido, espancava um homem com um açoite, o qual tomara à cintura do capataz Libório Cipoador, parando ape-nas quando aquele valentão que batera em Lázaro, mal se movimentava. Perguntou desse irmão aos ou-tros. Não havia qualquer notícia. E Ismael ia à guia dos equinos, segurando os arreios, ao lado de Helena. Margeando o caminho, já bem longe da sede do dis-trito, sob o sol muito íngreme, Nuno notava o verde cintilando luzes das plantações de cana-de-açúcar, envoltos pela rotunda unívoca e anilada do céu. O chão estava bem seco e ele se lembrou das rodas do veículo que crepitavam que nem madeira incandes-cendo, ao contato dos minúsculos cristais e das pe-drinhas em meio ao preto do massapê. Logo chega-ram às terras do seu pai, que agora estavam sob os cuidados dos dois irmãos, uma sua gêmea, o outro seu cunhado. E já no portão de entrada, pode avistar no alto da colina, a casa grande e branca onde cresce-ra e de onde saíra para se tornar bacharel e que se localizava numa colina de onde poderia se observar grande parte daquelas terras para onde estava voltan-do naquele dia, a fim de se resolver com o Coronel Inocêncio Frirredo, o seu suposto futuro sogro, a quem pediria o apoio eleitoral, sendo esse homem rosa e corpulento, o mandatário efetivo daquela regi-ão, cargo que exercia por meio do arbítrio e por meio do título de coronel, que nunca merecera, porque nunca vencera nem batalha, nem razia, nem duelo, e que matou uma vez um desafeto, capturado numa tocaia promovida por alguns dos seus filhos na escu-ridão noturna, o qual, no momento da morte, estava ajoelhado e com as mãos amarradas às costas, cerca-do pelos seus filhos negros de olhos glaucos, mas que era o título lhe dado por uma tradição tacanha e pu-trefaciente, a mesma que dera ao pai de Nuno outro título de coronel, a mesma que dera o título de coro-nelzinho a Nuno, a mesma tradição, contra a qual, nos limites legais estabelecidos ali, Nuno pretendia se levantar, sorrateiramente e depois a varrer, profe-rindo discursos, propondo legislações.
Desceu da charrete e se dirigiu ao alpendre que circundava a casa grande e branca, onde começou a caminhar e observar os campos, agora opulentos e de um verde viçoso; observou também os vestígios da senzala, cuja taipa, outrora absolutamente expugná-vel, agora estava em decadência, a qual deixava transparecer as casas de alvenaria que os habitantes chamavam de Vila e onde moravam os trabalhadores, que agora recebiam remuneração regular e tinham dias de descanso e dias para trabalharem nas suas roças e dias para negociarem as suas produções parti-culares de tubérculos, cereais e leguminosas na feira livre da sede do distrito de Jicamaranga; a vila onde também se erguera uma casinha com uma lousa de madeira dentro de onde as criancinhas dos trabalha-dores tomavam lições para aprender a ler e a fazer conta. E viu também a casa das máquinas iluminadas pelo fogo das fornalhas exalando o cheiro dulcíssimo do açúcar cachoante e já de volta à frente da casa viu a capela, no topo da colina oposta à da casa. Termi-nada a observação, entrou na casa grande e na sala de jantar, viu o velório que cercava os talbótipo das duas mães, a primeira morta num parto mal- sucedido, a segunda devorada por dentro. E quando acordou al-guns dias depois, tomou banho e se barbeou, vestiu as suas melhores roupas, as mais limpas, as mais brancas e comunicou aos irmãos da reunião que teria com Inocêncio Frirredo, na qual pretendia arranjar uma esposa, a filha desse homem, e uma eleição de legislador. Subiu num cavalo selado e foi-se embora, cabotino.
Chegou àquelas terras pela terceira ou quarta vez ou décima vez, ele não se lembrava, e passou pela guarda de filhos de Frirredo, composta por homens que o chamavam de Pai, porque eram filhos sanguí-neos daquele homem, que era filho de outro, a quem chamavam Adamastor Frirredo, um precursor da fre-nologia, um eugenista intuitivo, um praticante van-guardista de genética mendeliana, que um dia execu-tou um experimento quase científico, após ter notícia de que um mercador de gente tinha em seu plantel, dez negras núbeis de olhos glaucos, vindas não se sa-be de onde, juntadas não se sabe o porquê e que pro-curou o mercador, pagando a esse quantia vultuosa pelas moças, que chegando à propriedade foram ava-liadas pelas mulheres da casa, dentre elas uma capaz de lhes atestar o período mais fecundo entre as re-gras. Despachou a esposa, a mãe de Inocêncio Frirre-do, para casa de parentes e reservou um dos quartos da sua casa grandíssima e lá instalou as mulheres em leitos nupciais. Caberia ao filho Inocêncio, que na puberdade estava se rufiando frequentemente com uma porca e uma cabra – Adamastor o soube dos seus capatazes – fecundar aquelas moças, todas. A expec-tativa de Adamastor era a repetição do caráter reces-sivo no nível de melanina dos olhos da prole. Em dois meses, todas estariam prenhes. No ano posterior, depois do resguardo, as moças – agora eram nove, pois uma morrera de infecção generalizada depois de complicações no processo parturiente – foram de no-vo ocupar aqueles quartos e saíram novamente grávi-das, junto com o reprodutor Inocêncio Garanhão. O processo seria repetido nos períodos sequentes aos partos mais algumas vezes, guardando-se os resguar-dos, e os resultados da experiência se confirmariam, no fenótipo, as hipóteses eugenistas de Adamastor Frirredo. Trinta e seis indivíduos nascidos vivos e depois vingados, todos de olhos claros, todos meio negros, alguns mais, outros menos. Desses, vinte e três machos, que cresceriam e, ainda impúberes, seri-am submetidos a um rigoroso e vigoroso treinamento militar, e constituiriam a guarda pessoal de Adamas-tor, que pelo ódio ao negro e pela violência hiperbóli-ca do caráter completariam a corroboração da hipóte-se, que herdaria o filho, pai biológico daquela prole de guerreiros homicidas. As fêmeas envolvidas no pro-cedimento científico, as mães e treze filhas, cujas condições fenotípicas, corroborariam as hipóteses da mesma forma, sendo impossível aqui verificar tam-bém o caráter (a ciência que Adamastor praticava e professava não precisava se submeter a processos tão rigorosas de validação), foram negociadas com o mesmo mercador, propiciando a Adamastor, obter de volta grande parte da quantia invertida anteriormen-te. Era um homem de ciência, o pai de Inocêncio Frir-redo. E Nuno, depois de passar por aqueles homens, já dentro da casa viu sentado numa cadeira de balan-ço, aquela entidade feral, o porco bípede e corpulento cuja cabeça se cobria com um chapéu branco de aba dupla, com as escleras vermelhas envolvendo os seu olhos glaucos, os quais emitiam ameaças já nos mais lépidos movimentos, e que lhe negou qualquer apoio eleitoral e que lhe negou da mesma forma cordial a mão da filha, a qual Nuno amou e quis em matrimô-nio desde a primeira vez que fora naquelas terras, a vez em que viu a marcação de um F de ferro, de fogo, na cara de um homem de cujo nome, nesse momento Nuno nem se lembrava mais, nome do qual Vossa Mercê talvez só se lembre porque era um nome de guerreiro germânico; a vez em que viu Mariana Frir-redo, a moça que hoje submeteu sob o seu corpo to-mado pela paixão priápica, que começara, antes de ele nascer, no próprio cérebro e que acabou quando ele, com seus fluxos neuroquímicos definitivamente desequilibrados, encontrou Mariana na beira do ria-cho; a meia-irmã daqueles homens negros de olhos claros que Inocêncio Frirredo, o pai, comandava mo-vimentando os olhos sombrios e gélidos como o da-quele porco corpulento do qual avançou na direção, fechando os punhos e gritando ofensas e, no choque, derrubando-o da cadeira e ouvindo roncados tonitru-antes e conseguindo desferir naquele focinho nojento um soco, mas sendo contido pelo ferro frio de uma garrucha que um dos homens da guarda de Frirredo lhe encostou no quengo, pedindo-lhe o coronel, da mesma forma cordial, com que lhe negara as suas demandas, que ele se retirasse das suas terras, despe-dindo-se o coronel com um aperto de mãos e um abraço caloroso e desejos de lembrança para a famí-lia, e que não pode ver o aspecto ígneo que tomava a aura de Nuno, aquele amaldiçoado desde que nascera, da cor de um tição em brasa, matando a própria mãe. E furioso, ele toma a montaria e segue até as próprias terras e vai direto ao alambique onde arranja uma garrafa da diáfana cachaça e vai ao alpendre se sentar numa cadeira de balanço e toma um bocado, se into-xicando, o que ajuda aquele fluxo furibundo, já dese-quilibrado, a preencher impetuoso e definitivamente aqueles espaços vazios do juízo, agora cada vez mais brumado, quando se lembra do Brown Bess no escri-tório que pertencera ao pai e elabora um plano de tocaia para executar Inocêncio Frirredo e se lembra de Helena Seteadora, que acerta ao longe, a irmã gê-mea com quem conta para essa nova aventura fantás-tica e homicida, como aquela, na qual o simulacro dos seu manuscrito seduziu Libório Cipoador, levando-o para uma armadilha; mas agora Helena cuida de tudo e de todos com Ismael e não podem ajudá-lo em pla-no algum com uma arma tão longa e difícil de mane-jar e de esconder quando ele invadisse a casa de Frir-redo e é então que ele se lembra, ele se lembrou, de algumas das garruchas que ali também pousavam, alguma das quais ele poderia tomar e ir novamente às terras de Frirredo, pela quarta ou quinta ou décima vez, tanto fazia, invadir a casa grande e branquíssima, caiada de tinta calcária e usar aquele instrumento para encher aquela cara rosada e fornida de projéteis incandescentes e cintilantes e toma mais uma lapada da deliciosa cachaça e se levanta e vai agora ao escri-tório do pai e tira a mais bela das garruchas do armá-rio, a qual agora fulgura, faiscando-lhe os olhos que agora só pensam em Frirredo e se movem em sincro-nia com os movimentos do porco, o facínora que lhe interditara o amor, que lhe negara o poder, quando ele saiu caminhando pelas terras do seu pai, na dire-ção da mata onde ficava uma parte mais rasa do ria-cho que se abriu ali em um caminho pedregoso o qual tomou até cruzar com uma birosca de paredes falto-sas, a qual invade impetuosamente e exige que lhe vendam cachaça, que bebe em goles barulhentos de um cantil, enquanto no fundo próximo às paredes vazadas pela escuridão de um dia claríssimo, percebe uma dançarina, uma odalisca de harém dançando o ventre sinuoso, do qual ele agora quer se aproximar ao ponto de poder reconhecer aquela face de Afrodite Mascarada, que o envolve com as pernas, quando ele então se desgarra e vê duas meninas, uma negra e outra branca, banhando-se em vestes frágeis logo a frente, no riacho, ao lado do coração de negro e não se lembra do dia em que ele viu Mariana, vestida de branco, com a cintura envolta numa fita luzidia, sor-rindo e segurando um prato de doce, e que o chamou para se sentar à mesa e compartilhar a merendinha, quando ele sorriu em resposta, e aceitou e quando eles sorriram, quando a inocência ainda lhe preenchia os espaços vazios do cérebro, quando a amou de ver-dade.
Se disso tivesse se lembrado naquele instante, Nuno não teria sucumbido à irresistível Força que se abateu nos seus dedões, que em atrozes movimentos sincrônicos, esmagaram a traqueia de Mariana, cujo corpo frágil cedeu facilmente à violência de Nuno, que arrancou dela o último choro, o último raciocínio, o último pulso cardíaco, e lhe submeteu à completa ausência de luz. Mas ele nunca se lembrou e só parou seus movimentos quando da sua vítima, só restava o corpo jazido sob si. Uma fagulha de remorso sobre a obscenidade dos próprios atos se lhe estabeleceu no raciocínio, mas o tempo dela acesa foi insuficiente para que se expandisse e lhe dominasse a mente, pois Nuno agora pensava nos sons galopantes dos cavalos de um exército que já se posicionava atrás dele.
As atrocidades redentoras de Lázaro
Todo ser humano detém a propriedade de si mesmo.
John Locke, pensador liberal e traficante de seres humanos
O entediante amor de Helena e Isma-el
When the garden flowers, baby are dead, yes and
Your mind, your mind is so full of red
Somebody to love, Jefferson Airplane
Se espremer sai san-gue
Post Scriptum
Por Helena Cristina Gonsalves Monteluso Cavalcanti Varjal de Holanda e Albuquerque da Mota
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