segunda-feira, 2 de novembro de 2015
Sofia entrou na salinha de repouso e viu Scanoni. Ele se acomodava na poltrona que poderia servir muito bem àqueles cochilos revigorantes em frente à televisão de que os mais velhos sabiam gozar perfeitamente. O relaxamento era tão grande que, ao primeiro passo da moça, ressoou um ronco de motor de cinquentinha desregulado.
- Eita porra! – Exclamou impressionada Sofia – Ivo, Ivo! Acorda! Acorda!
Scanoni abriu os olhos e pela penumbra viu aquele rosto delicioso. Concentrou-se no círculo carnudo que se formava quando a boquinha soprava a última sílaba do seu nome. Fitou os olhos e por algum instante, elucubrou a hipó-tese de um convite desavergonhado por parte da moça. Conseguiu imaginar do início ao fim a cena sequente ao aceite. Mas quando fumava o cigarro posterior, ouviu dela:
- Acorda, menino! Trabalho!
Trabalho? Que nada. Homicídio! Ele ainda não esta-va completamente confortável com a externalidade indelé-vel de ouvir a palavra. Ouvia trabalho e pensava em homicí-dio. Até os Doze Trabalhos de Héracles lhe chegavam de primeira ao raciocínio como os Doze Homicídios de Héra-cles, malgrado das tais proezas do semideus, apenas quatro fossem assuntos de sangue, e mesmo assim nenhum deles propriamente humano. Mas o leitor deve perceber que o ra-ciocínio do nosso amigo Scanoni era meio torto, pois traba-lho não podia equivaler a homicídio. Isso seria coisa de pis-toleiro. Trabalho, isso um dia estaria mais consistente nos seus fluxos de consciência, era a investigação. Ou, mais pre-cisamente, o fato de alguém tirar a vida de outro tinha o condão de envolvê-lo no processo que deveria, passando pelos esclarecimentos dos motivos e de outras circunstâncias, resultar na punição do primeiro.
- Que foi? – Levantou-se quase pulando da cadeira.
- Três corpos numa caçamba de caminhão.
- Caralho! Onde foi isso? – Scanoni falou esfregando os olhos
- Lá em Parnamirim, na zona rural.
Entraram na viatura e seguiram. Já na BR-232, a madrugada escura e limpa de verão propiciava um espetá-culo leitoso no céu. Scanoni sempre apreciava o pedaço de galáxia que se apresentava quando entrava no breu das es-tradas e rasgava os rincões despovoados. Por esse e mais outros motivos, costumava deixar o volante à parceira. De repente, Sofia freou com pressa e os pneus cantaram.
- Que porra é essa? – Perguntou Scanoni, tentando identificar aquilo que era iluminado pelos faróis.
- É um jegue deitado na pista. Ainda bem que eu não tava correndo.
Enquanto ultrapassavam o asinino, Scanoni apontou a submetralhadora que carregava na direção do animal. Não tinha intenção de disparar, mas fez o gesto impertinente na tentativa de extravasar a raiva do susto. Sofia começou a rir.
- O bichinho só tava se aquecendo.
Mais um pouco e entraram numa estradinha de areia. Uns dez minutos depois, avistaram as viaturas da PM e da Polícia Científica. Os faróis dos veículos se voltavam à direção da cena, uma caminhoneta F-4000 de boleia verme-lha estacionada num terreno mais regular da caatinga que margeava a estrada. Scanoni não pode precisar o modelo ou o ano.
Os investigadores desceram e cumprimentaram o Cabo que comandava a patrulha e os dois peritos. Uma brisa rápida levantou um pouco de poeira e fez chegar ao nariz de Scanoni um cheiro de carne pútrida. Um pouco depois, ele escutou uma sinfonia de zumbidos rápidos e confusos: mos-cas rondavam os cadáveres.
- Pode subir já. – Falou um dos peritos.
Sofia ligou uma lanterna e pediu ajuda a Scanoni a fim de subir na caçamba pelos pneus. Ele começou empur-rando pela perna e num movimento afortunadamente inevi-tável, segurou firme a bunda ainda mais carnuda que a moça ostentava. Ela entrou na caçamba e passou a expelir repetidamente o ar pelo nariz, tentando não respirar aquela atmosfera horrenda. Scanoni se dirigiu à boleia do veículo. Notou logo uma marca de disparo na lataria da porta do mo-torista. Dentro, havia vestígios de sangue. O odor pútrido também era acompanhado pelo frenético revoar de moscas. Scanoni foi à porta da direita e abriu o porta-luvas. Achou um pouco de maconha, seda e alguns notas fiscais de postos de gasolina. Recolheu o material e escutou Sofia gritando seu nome.
- Que foi?
- É bom tu subir aqui.
Scanoni subiu por um pneu e foi abordado por uma mosca que lhe pisou a testa. Ele espantou o funesto inseto e observou o cenário:
- Caralho! Deve fazer uns dias que eles tão aqui.
- Dá pra chutar quantos? – Perguntou Sofia aos peri-tos.
- No mínimo três.
Os três corpos tinham as mãos decepadas. Dois de-les estavam mais destruídos. Aparentemente tinham sido atingidos por escopetas. O terceiro parecia mais limpo. Ao virar o cadáver, Sofia notou uma marca de disparo de menor calibre com entrada na nuca. Ao observar o rosto, Scanoni percebeu uma coisa estranha que parecia lhe preencher a boca. Aproximou-se refugando ar e viu uma coisa roliça parecida com um bastão com a extremidade encarnada. Ao mexer no objeto, percebeu que era, na verdade o início, de uma mão.
- Porra! Tem uma mão enfiada dentro da boca dele. – Falou alto.
- E no cu também. Nos três, tem uma mão enfiada na boca e outra no ânus. – Replicou um dos peritos. – E os RG tavam com eles. – Mostrou os documentos dentro de um sa-co plástico.
- Ilumina aqui, Sofia.
Tirou a caderneta que levava no bolso da calça e anotou os dados das vítimas.
- Sem muito sangue na caçamba. Acho que esses ca-ras não morreram aqui. – Disse a Sofia.
- Se tiveram sorte, enfiaram as mãos neles depois de morrerem. – Replicou a investigadora
Scanoni a olhou com estranhamento. O que se fazia com o corpo lhe soava como parte da morte. Começou a descer da caminhoneta. Sofia o seguiu, sem precisar de aju-da.
- De qualquer forma, parece um negócio meio ritua-lístico. Eles devem ter roubado alguma coisa. Vocês conhe-cem algum deles, Cabo? – Perguntou Scanoni ao PM
- Dois são irmãos. O pai era um atravessador de ma-conha que morreu num tiroteio na época da Mandacaru. Mas nunca ouvi falar que eles traficavam. O outro eu não sei quem é, não.
Scanoni tirou uma caixa de cigarros do bolso, acen-deu um e começou a se drogar respeitando a legislação.
- Me dá um. – Pediu Sofia.
- Oxe! Tu não quer parar?
- Eu vou deixar apagado.
Scanoni olhou a moça com desdém, mas lhe entre-gou o bastão de tabaco e mais não se sabe quantas mil subs-tâncias nocivas à saúde. Em seguida, resumiu seu julgamen-to censurador sobre a atitude de Sofia numa frase:
- Agora deu a porra!
Fizeram mais algumas anotações e trocaram as úl-timas informações com os outros policiais. Depois começa-ram o retorno à 23ª Seccional. Voltariam à investigação do triplo homicídio depois do posterior descanso de um dia.
Nos dias de folga, Scanoni costumava dormir na re-de da varandinha do quarto e sala que tinha alugado no cen-tro da cidade. Logo cedo, ainda havia um frescor de madru-gada sertaneja, que lhe propiciava algum conforto até quase nove da manha. Mas naqueles últimos dias, com o verão já bem chegado, o calor tinha aumentado em demasia e mes-mo antes das sete não era tão simples ficar à temperatura ambiente. Para sorte dele, o puxadinho tinha um aparelho de ar-condicionado no quarto. Dona Francisca, a proprietá-ria do imóvel, morava abaixo dele e também, para sua sorte, resolvera adotá-lo informalmente. E isso lhe rendia meren-dinhas e às vezes até refeições reconfortantes.
Nesse dia, ele acordou por volta das onze. Tinha marcado um almoço com uma professora que conhecera depois de uma investigação e com quem já começara um namorico. O nome era Luíza. Tomou banho e foi-se embora ao restaurante. Ao chegar, a moça já o esperava. Tinha os cabelos meio agalegados, naquela hora, molhados e cheiro-sos. Scanoni gostava dos olhos grandes e redondos, muito pretos e pidões contornados por cílios compridíssimos que lhe davam um ar hentai.
Comeram e conversaram banalidades. Depois do almoço Luíza disse, fitando-o com uma expressão resoluta:
- Hoje de tarde, tou livre. A gente vai pra minha casa. Lá, quero que você me deixe assada antes de anoitecer.
Scanoni olhou a moça e riu.
- Antes de anoitecer? Então vou pedir um docinho pra aumentar a glicemia.
Depois da sobremesa, foram à casa da moça e Sca-noni cumpriu a tarefa que aquela lhe atribuíra no prazo es-tipulado.
Já quando se encaminhava a casa, recebeu uma liga-ção de Sofia:
- Tou aqui com o pessoal tomando uma cervejinha. Vem-te embora. Daqui a pouco Germano chega também.
- Oxe! Germano? Que porra é essa? Reunião de tra-balho? Vou nada!
- Vem logo, tabacudo. A gente não vai falar de traba-lho não.
- Ok. É bom que eu janto.
Scanoni começou a caminhada até o Bode Véio, o bar que a polícia adotara como seu, já que ficava na esquina de uma rua que abrigava duas unidades policiais.
Como prometido, Sofia nem mais ninguém falou de trabalho. Depois de umas cervejas e porções de acepipes sertanejos, pagou-se a conta e Scanoni seguiu com a parcei-ra que morava no caminho que ele faria até o puxadinho. Andavam em silêncio. Já perto da casa da moça, ela falou:
- Assunto de trabalho.
- Hum. Que foi?
- Fazia três dias que eles tinham morrido.
- Sei. – Respondeu placidamente Scanoni.
- E a caçamba tava cheia de vestígio de bosta e pelo de boi.
Scanoni agora mais atento encarou Sofia. Pensou nas mãos decepadas e se lembrou da Shari’ah.
- Tu acha, como eu agora acho, que eles podiam tá roubando gado?
- Acho muito. Liguei pras delegacias de Parnamirim, Ipubi e de Exu. Tá tendo muita ocorrência de roubo de gado. A de Salgueiro também confirmou isso.
Scanoni olhou a moça, como se desse os parabéns pela diligência.
- Porra! Tu se garante mesmo, né? Mas vê se vai pra casa dormir agora e deixa algum trabalho pra gente fazer na hora de expediente, né, lindinha?
Despediram-se. Em seguida, Scanoni acendeu um cigarro e seguiu com passadas lentas.
No outro dia pela manhã, já na Seccional, Scanoni e Sofia entraram na sala do Tenente Germano Münch, seu su-perior. Sobre o sobrenome germânico, ninguém nunca o chamava corretamente. Mas o sobrenome por parte de mãe era a escolha mais adequada porque o do pai era ainda me-nos amigável: Cratodopoulos. Ele tomava um cafezinho e olhava alguma coisa na tela de um computador. Por volta dos quarenta, tinha um compleição franzina. Passava com muito esforço dos cinco pés de altura, mas fazia ressoar quando falava, um vozeirão barítono. Ainda mantinha um forte sotaque paulistano, mesmo já com quase quinze anos de semiárido. O temperamento era sereno e gentil. Scanoni o admirava como policial e, da mesma forma, como chefe da Equipe de Homicídios da Vigésima Terceira Delegacia Secci-onal, responsável pelas investigações dos crimes contra a vida no Sertão Central de Pernambuco. E ele gostava de Scanoni, porque esse sabia a pronúncia quase correta do seu sobrenome.
- A identificação dos três de Paramirim. Endereço e tudo. E aqui os laudos da perícia da cena e os tanatoscópi-cos. Vão trabalhar. E me mantenham por dentro de tudo. – Falou encarando Scanoni com aquele rosto sardento e olhos azuis cadavéricos.
Scanoni ficou com o primeiro laudo e Sofia com a si-tuação dos cadáveres. No da cena, puderam ser lidas con-firmações sobre o fato de as vítimas não terem sido mortas no local onde jaziam seus corpos. Foram coletados indícios, como pegadas e marcas de pneus, mas as análises mais acu-radas ficariam para depois.
- Eles já tinha morrido. – Revelou Sofia.
Scanoni olhou a parceira.
- Enfiaram as mãos com eles mortos.
Depois de cuidarem das informações pertinentes, conversaram e decidiram ir tomar depoimentos dos familia-res. Os dois irmãos e o primo moravam com a avó num dis-trito rural em Parnamirim. Pegaram a BR.
Um pouco antes da entrada de Parnamirim, entra-ram por uma estrada sem pavimento. A secura do chão pro-piciava uma névoa de areia que bloqueava a visão que se podia ter de qualquer coisa que estivesse no encalço da via-tura. Scanoni não gostava nada daquilo e manteve-se atento com a submetralhadora devidamente destravada.
Chegaram a uma pequena propriedade e puderam avistar uma casinha de alvenaria quase no centro do terre-no. Na entrada, umas três cabras peitudas iam comendo os últimos matinhos esverdeados. Pareciam nutridas, embora o cenário ao redor não indicasse muita abundância de pasto. Desceram do carro e chegaram a um portãozinho de onde puderam ver dois meninos que rodavam peão sob a sombra de uma árvore frondosa, cuja espécie Scanoni ignorava. Ele observou a brincadeira. Sofia bateu palmas e gritou:
- Dona Deolinda!
Pela porta dupla, aberta só na parte de cima, pude-ram perceber uma senhora carregando um bebê. Ela abriu a parte inferior e andou pelo caminho que levava à entrada da propriedade.
- Pois não?
- Bom dia, a gente é da polícia. – Falou Scanoni. Deu uma pausa, respirou fundo e continuou – É sobre as mortes dos seus netos. A senhora podia falar com a gente?
Dona Deolinda exibiu alguma tristeza no cenho, mas olhou Scanoni com firmeza e falou:
- Sim, meu filho. Vão entrando. Bom dia pra vocês.
A mulher devia estar por volta dos sessenta, mas apresentava compleição bastante rígida. Rugas na face e pe-le queimada denunciavam a história de pequeno agricultor sertanejo.
- Toinho e Pedro! Vão parando de rodar essa carra-peta da gota aí, que vocês vão cuidar de Severina. – deu a ordem aos pivetes e deixou a menininha sentada no chão – eu vou conversar com o moço e a moça aqui. Daqui a pouco eu volto. Olho vivo! Os dois, viu? Que essa menina tá virada.
Os meninos começaram protestos, prontamente ig-norados. Dona Deolinda chamou os agentes para dentro da casa. Na sala, apontou um sofá gasto e uma cadeira. Puxou uma para si e sentou.
- Pode perguntar.
- A senhora era avó dos três, né?
- Sim. Tavam morando comigo. João e Adalberto vieram depois que o pai morreu, faz uns três anos. A mãe se perdeu pelo mundo. O outro, Amauri, tava morando aqui, fazia uns meses. Veio da Bahia, fugido. Fez umas besteiras por lá e tavam querendo pegar ele.
- O que ele fez?
- Coisa de menino virado. Andando com uns salafrá-rios. Roubando. Umas coisas erradas. Aí o pai mandou ele pra cá. Mas não teve muito jeito.
- A senhora sabia se eles tavam roubando gado? – Desferiu Scanoni, sem concessões.
- Sim. Eles tavam mesmo. É que é muito difícil cui-dar desses meninos nessa idade. E eu fiquei sozinha com eles. Tem uma filha que mora aqui comigo, que trabalha na cidade. Mas ela já tem os meninos dela. E eu já tou muito cansada pra ir atrás de três langanhos de mais de vinte anos. Tava ouvindo as histórias do povo, mas quando falava, eles nem me ouviam. Mas eles não eram vagabundos, não. Viu, moço? Eles me ajudavam com as coisas daqui do sítio. Na lavoura, nas cabras, nas galinhas. Mas tavam com essa histó-ria de roubar gado nas fazendas. Era mais é safadeza de me-nino novo, pra no final de semana ir tomar cerveja e ir atrás de rapariga. Eles montavam no caminhão e saíam por aí. Por falar nisso, a polícia vai devolver meu carro quando?
Scanoni não entendeu prontamente, mas depois se lembrou da F-4000. Não soube bem o que dizer:
- Deve ser em breve. É que a polícia precisa dele pra fazer a investigação.
- E o povo tem falado o quê da morte deles? Já tão sabendo quem é? – Perguntou Sofia.
Dona Deolinda puxava um cachimbo de madeira e uma carteirinha de fumo. Encheu o fornilho e começou a acender. Das primeiras baforadas, a fumaça resultante en-trou nas narinas de Scanoni e lhe atiçou as papilas olfativas, que, pelo nervo sequente, informaram ao cérebro do inves-tigador de que ali se cometia um delito. Atarantou-se no começo, mas continuou a inalar o vapor de tetrahidrocarbi-nol que se espalhava impunemente pela sala. Logo, acal-mou-se e se tocou da impertinência de interpelar aquela se-nhora que só expressava honestidade.
- Isso é coisa de pistoleiro. Ou de gente da polícia mesmo. Os salafrários não têm nenhuma vergonha de sair dizendo o que fizeram com meus meninos. Tem uns fazendo isso na cidade. Mas não sei o nome de nenhum, não. Teve um que veio aqui de CG e ainda ameaçou meu neto mais ve-lho, irmão dos meninos de Dandara. Dandara é minha filha doida. Mas esse, o nome dele é Damião, tomou jeito na vida faz tempo e trabalha na cidade também. Já tá até amasiado por lá.
Sofia tirou um papel do bolso. Scanoni ficou obser-vando. Mas em vez de anotar qualquer coisa, a moça per-guntou à velha:
- A senhora me dá um pouquinho desse fumo?
- Dou, minha filha. Tome.
Scanoni olhou a parceira com alguma surpresa. Ela rapidamente envolveu o produto na seda e lhe disse
- Esse aqui eu vou acender. – Voltou-se a sua salva-dora e continuou a interrogá-la – A senhora se lembra de como ele era?
- Não. Tava de capacete.
Sofia acendeu o delgado cigarro e tragou. Depois passou a Scanoni, que aceitou, achando graça. Dona Deolin-da seguiu contando histórias da infância dos netos. Lamen-tou a morte do genro e a debandada da filha do meio, que mandava cartas e algum dinheiro, mas sem nenhuma regu-laridade.
- Vocês querem um docinho de leite de cabra? Tá bem caroçudo. Fiz ontem.
Scanoni nunca ouvira falar da iguaria. Com um re-pentino apetite, aceitou prontamente, tal qual a parceira. Comeram as relevantes quantidades ofertadas. Depois dos devidos elogios, ele perguntou à mulher:
- A senhora não tem aí pra me vender um potinho desse doce, não?
- Oxe, menino. Eu lhe dou. Tem muito. E eu não ven-do não.
- Não, não. Faço questão. Já vou tirar doce das crian-ças. Eu quero pagar.
- E se a senhora tiver mais um pouquinho do fumo aí, eu quero também, viu? – Demandou, Sofia com doçura.
- Mas tem tudo mesmo!
Dona Deolinda entregou os dois produtos do seu sí-tio e Scanoni lhe deu uma quantia generosa.
- É muito, menino!
- Não. Fique! É pra pagar o dela também.
Despediram-se da agricultora e dos meninos que trelavam no terreno. Antes de entrarem no carro, Scanoni se lembrou do neto mais velho, Damião.
- O seu neto mais velho, como eu encontro ele?
- Ah. Ele é garçom. Trabalha na Buchada do Alemão. Um bar lá na cidade. Fica lá o dia todo.
No carro, Scanoni sugeriu:
- Vamo comer buchada em Parnamirim?
- Opa!
- E sobre essa maconha aí, eu só não vou te enqua-drar porque fui eu que paguei.
Sofia riu e disse:
- Brigada, amor!
Entraram em Parnamirim e na rua principal, que não tinha nem um quilômetro, viram um letreiro com o no-me do bar em que Damião trabalhava. A cidade parecia meio vazia, mas ao sol da metade do dia, pouca gente se dispunha a ficar exposta. Seguiram ao estabelecimento; não mais que três mesas estavam ocupadas. Sentaram-se e Scanoni falou a Sofia:
- Bom, vamo ter cuidado com o cara, pra ninguém ver que ele tá falando com a polícia. Já sofreu uma ameaça e não deve tá muito a fim de falar com gente, não. E não duvi-do nada de ter gente de olho nele. Deixa comigo.
Tirou a caneta e a cadernetinha do bolso e começou a escrever. Um garçom se aproximou do casal. Scanoni per-cebeu um rosto familiar, ao se lembrar das fotografias nas identidades das vítimas do triplo homicídio. Apontou o pa-pel já escrito sobre a mesa a Damião. Nele se apresentava e perguntava se ele tinha algo a dizer sobre a ameaça que so-frera. Concluía aquela missiva improvisada, alertando que o rapaz só respondesse, por escrito, quando fosse entregar a conta. Ele olhou Scanoni assustado, mas balançou a cabeça afirmativamente com toda discrição.
- Boa tarde! Uma cerveja e uma buchada pra dois. Cerveja bem gelada, viu irmão?
Damião saiu rapidamente
- O que foi que tu escreveu? – Perguntou Sofia.
- Só pedi pra ele falar da ameaça. Se sabe quem foi ou desconfia e essas merdas.
- Boa ideia, a tua. Preservou a testemunha.
Damião já voltava com as cervejas e os copos. En-cheu-os e Sofia ofereceu um brinde a Scanoni. Uns poucos minutos depois, chegou a buchada e os se dedicaram àque-las apetitosas bolsas de estômago de bode, recheadas com os fatos do caprino picados e condimentados com especiari-as. Depois da refeição, pediram a conta. Essa veio acompa-nhada de um bilhete em quê se lia:
“Não reconheci o cara porque ele tava de capacete. Mas decorei a placa da moto KHY-2207 de Sobral. Era uma CB 450”
Pagaram a conta, entraram na viatura e minutos de-pois já estavam no asfalto incandescente da 232. Seguiam sem muita conversa, quando Sofia falou:
- Passei, visse?
- Hem? Passou em quê?
- No exame pra promoção. Vou virar tenente. Soube hoje de manhã. Tava conversando isso com Germano já.
- Eita! Massa! Parabéns, lindinha.
- Devo ir pra Petrolina em umas semanas. Um te-nente da equipe de lá vai sair de homicídios. Já até conversei com o Investigador-Chefe da 26ª.
- Porra, vai me deixar aqui sozinho?
Embora protestasse num tom galhofeiro, Scanoni lamentou. Tanto porque Sofia era uma competente parceira, quanto porque ele nutria uma paixão meio platônica pela moça. O platonismo aí se fundamentava no desejo de que Sofia pudesse querer um homem. Ela tinha uma namorada em Petrolina. A rigor, isso não era a realidade mais grave, mas sim o fato de que, segundo as línguas soltas da polícia, mulheres sempre eram os alvos das andanças sexuais e afe-tivas de Sofia. Scanoni olhou a parceira. Ela o olhou de volta e ele pode notar, como se fosse uma das últimas vezes, a pe-le marrom que nem um pingado, atravessada por dois olhos pequenos, em cujo centro duas bolinhas esverdeadas bri-lhavam. Só lhe restava aquela admiração resignada e ele voltou a olhar a estrada.
Logo em seguida, escutou-se o ronco do motor de uma moto de baixa cilindragem. À frente, a pista estava va-zia até o horizonte. Nas margens, só aquele mato seco e um ou outro rio sumido, indicado por placas. Todos sabiam que no Sertão de Pernambuco, os assaltos nas estradas eram praticados por motociclistas. Dentro de um carro da Polícia Civil, o ressoar do ronco de uma CG sempre iniciava um pro-cedimento normalmente apenas preventivo: o policial que não estivesse ao volante destravava a submetralhadora já devidamente empunhada; o que estivesse, empunhava a pis-tola que levava debaixo da coxa. A recomendação corrente de o cidadão não reagir a um assalto nem triscava na cabeça de um policial.
Scanoni olhou a moto pelo retrovisor e supôs que ela se distava uns cem metros da viatura. Tentou identificar qualquer situação ou movimento incomuns, mas nada lhe pareceu assim. Sofia não costumava correr muito e talvez por achar que não passasse de outra situação normal, man-teve-se a uns oitenta por hora. Scanoni fixava o olhar no re-trovisor do carona até que começou a notar uma aproxima-ção progressiva do veículo. Virou a cabeça e apontou a arma na direção do vidro traseiro do lado do motorista.
- Acelera, Sofia. – Falou apreensivo.
Ela começou a acelerar, mas a motocicleta arrancou e já estava no vácuo da viatura, quando começou o movi-mento de ultrapassagem pela esquerda. Scanoni acreditava que a pior das hipóteses era um assalto, cuja abordagem ao motorista se daria com arma em punho do carona. Manteve-se de olho nele. Mas o desgraçado foi rápido o suficiente pa-ra sacar uma arma e disparar, quando ainda se posicionava quase na traseira do carro. Ao ver a arma, Scanoni puxou o gatilho da submetralhadora e rajou cinco projéteis. Antes de a rajada acabar, sangue espirrou no seu rosto. Depois ele só sentiu o carro entrar quase voando na caatinga. Teve certe-za de que iam capotar, mas algum arbusto segurou a viatura. Manteve-se consciente durante todas as etapas do evento. Quando o carro definitivamente parou, viu Sofia desacordada, a nuca ensanguentada e a cabeça no volante. O desacordada era apenas uma questão de fé da parte dele, já que a imagem não podia confirmar isso de nenhuma forma. Olhou ao redor e não viu ninguém se aproximando. Tentou achar o pulso da aorta da parceira, mas suas mãos tremiam. Saiu do carro e voltou à pista. Notou prontamente a moto caída e um dos motoqueiros, ainda com capacete, indo na direção da caatinga do outro lado. Correu até a moto e percebeu que o outro estava no chão e ensanguentado. Sem deixar de lhe apontar a arma, chutou a perna do corpo, que não mostrou a mínima reação.
- Acorda, filho da puta! – Bradou, mas já se conven-cia de que o homem estava morto. Constatou o óbito, quan-do notou três orifícios no capacete e sangue por todo o pes-coço. Tirou o equipamento para ver a cara do atirador. Re-compôs-se ainda em tempo de ver o vulto do outro desapa-recendo em meio aquele mato cor-de-palha. Desistiu da per-seguição quando se lembrou de Sofia. Voltou ao carro e en-controu a parceira abrindo a porta e cambaleando.
- Sofia! – Gritou – Você tá ferida! Volta pro carro!
Ela obedeceu. Scanoni olhou o rasgão no lado direi-to da nuca. Ficou aliviado quando percebeu que o projétil tinha atingido Sofia de raspão. Tirou a camisa e fez pressão no ferimento. Ela também sangrava pelo nariz.
- Vira a cabeça pra trás.
- Tu pegou o filho da puta?
- Um tá morto. O outro fugiu. Se acalma que eu vou ligar pro socorro.
Sofia começou a chorar. Scanoni a confortou:
- Calma, lindinha! Só tenta ficar acordada porque tu bateu a cabeça com força.
Coisa de meia hora depois, chegou uma ambulância. Uma patrulha da PM que chegara ainda antes, fez buscas na direção em que o outro motoqueiro tinha fugido, mas não houve sucesso. Sofia foi posta em uma maca e Scanoni a acompanhou até o hospital. Antes da internação, ela lhe en-tregou a trouxinha que recebera de Dona Deolinda e disse ao parceiro:
- Guarda.
Scanoni acordou com um sol perpendicular ilumi-nando a sua cara. Olhou em volta e percebeu a inconfundível paisagem árida da caatinga, só manchada de verde por uns mandacarus e uns xique-xiques suculentos. Levantou-se e começou uma caminhada. No horizonte, no alto de um monte acastanhado, viu um objeto voador, que parecia despejar alguma coisa enquanto se movimentava. Observou os projéteis caindo e se estourando no chão. Já mais próximo, escutou um mugido gutural e conseguiu identificar um boi e a parte do corpo de onde saiam os projéteis. Progressivamente na sua direção, as bombas de bosta já quase o atingiam. Sem pestanejar nem um segundo, ele sacou um bacamarte do bolso e atirou no boi voador. O res foi atingido, mas acabou caindo em cima dele. Scanoni se levantou, tentando se livrar daquele animal corpulento, mas foi inútil. Continuou a caminhada curvado e carregando a criatura nas costas por um tempo indefinido. Acordou suado e com dores por todo o corpo.
Já no trabalho, no outro dia, passou o expediente matinal incomodado com as lembranças dos eventos do dia anterior. Esteve a uma proximidade inédita da própria mor-te, tendo Sofia quase a encontrando de vez. E, por seu turno, matara uma pessoa. Embora convencido da justeza e neces-sidade de ter feito alguém ocupar uma vaga no barco de Creonte, não se sentia nada confortável. Talvez porque, em vez de duas moedas de ouro, mandara ao barqueiro, o infe-liz com três projéteis de chumbo. Passou o tempo quase in-teiro na sua estação de trabalho fazendo coisas irrelevantes. No início da tarde, Germano passou por ele e disse:
- Vai pra casa. Descansar. Sofia tá bem, teve uma concussão e vai ficar em observação por uns dias. O feri-mento foi só de raspão mesmo. Levou uns pontos. Amanhã você volta.
Scanoni balançou a cabeça e já ia se levantando, quando o tenente continuou:
- E vê se fica em casa mesmo. E se não ficar, não fica sozinho por aí vacilando. Cuidado! Não dá pra saber o que foi que houve ainda.
- Ok. Até amanhã! – Respondeu e foi-se embora.
No início da noite, a professora Luíza foi visitá-lo e dormiram juntos depois de algumas conversas amenas.
No outro dia, passou o expediente matutino organi-zando as informações sobre o caso para dar ciência delas ao superior. Além disso, contatou o Detran do Ceará em busca de informações sobre a motocicleta que Damião apontara. As respostas só viriam à tarde. Foi-se embora almoçar no Bode Veio sozinho.
Comeu num desânimo estival e antes de sair do res-taurante, um homem atarracado, usando um clássico gibão de vaqueiro e exibindo aquela cara queimada de sol do Ser-tão se aproximou de Scanoni e o interpelou.
- Teu nome é Scanoni, né boy?
Scanoni olhou de volta com uma careta meio indig-nada e pensou consigo:
“Boy? Que porra é essa? Quem é esse arrombado?”
- É. Agente Scanoni. Por quê? – olhou duramente o cidadão.
- Tenho uma coisinha pra contar. Biu. Traz uma cer-veja aqui pra mim e pro boy.
O homem sentou e ficou olhando Scanoni como se o estudasse. Tinha um olhar acusativo e naturalmente ressa-biado. Então perguntou:
- Tu é de Recife, né?
- Sou. E daí? Que porra tu quer comigo? – Falou isso já pensando numa maneira de sacar a arma se percebesse qualquer comportamento estranho ou hostil. O atentado ainda lhe comovia fortemente a memória e ele numa atitude típica de insubordinação, tinha ignorado as recomendações do Tenente Germano de não andar sozinho. Assim, ficava numa tensão demasiada.
- Calma, boy. – Falou o homem, já em tom de debo-che.
- Boy é o caralho, meu irmão! – Scanoni bradou e num gesto rápido puxou a camisa do caboclo – o que porra tu quer?
- Ei. Calma aí, calma aí. Só tava testando pra ver se tu é de rocha, mesmo. Tenho uma coisa pra te contar.
Scanoni lhe soltou o colarinho. O rapaz se ajeitou e sentou. Biu trouxe a cerveja e dois copos, que encheu. Sca-noni, dada a temperatura causticante de uma atmosfera com exíguas e raríssimas gotículas d’água, aceitou o refresco etí-lico inadequado. Num gesto terno, porém com o olhar duro, mandou o homem prosseguir.
- Meu nome é Anacleto Correia. Eu trabalhava até semana passada na Boi Branco.
Scanoni manteve o olhar firme, atento. Anacleto continuou:
- É sobre aqueles três que morreram lá pela banda de Parnamirim. Eu não concordo com pena de morte, não. Os três já tavam pra ser presos. Eu conheço um pessoal lá da delegacia de Parnamirim e eles já sabiam que os três tavam roubando gado na região. Só tavam esperando alguma coisa mais confirmativa pra prender eles. – Falou sugerindo a Scanoni, um brinde. Bateram os copos, deram o gole inicial, puseram o vaso sobre a mesa e o primeiro continuou a fala:
- E judiaram que só dos meninos, rapaz. Mas eu já fui bandido também. Traficava maconha quando era mais novo. Parei depois, há uns anos, quando um primo meu, meu pareia, morreu com um tiro de doze na cabeça, que o dono de uma plantação mandou dar nele, porque ele tinha perdido uma carga de maconha. Deixei de ser bandido e fui estudar. Hoje sou técnico em veterinária. Ajudava a cuidar do gado lá de seu Teófilo.
Scanoni, embora fosse capaz de apreciar a história de vida de Anacleto, naquele calor e possivelmente ameaça-do de morte, não estava nem um pouco interessado nela e já começava a se impacientar.
- Sim. E agora tu vai falar do quê? Da mulher que tu comeu ontem? Pra que porra eu quero saber disso? Fala lo-go o que tu tem pra falar.
Anacleto fez uma cara de retirante trepado em pau-de-arara. Scanoni percebeu e em tempo se corrigiu:
- Vê bem. Eu acho uma história como a tua legal e pá. Sou contra pena de morte também e acho que as pessoas devem ter a chance de se recuperar na vida. Mas agora –tomou um gole de cerveja e olhou Anacleto com serenidade – já tentaram me matar e minha parceira tá no hospital de-pois de ter levado um tiro. Num momento mais tranquilo, e eu pretendo me manter vivo, eu te procuro, a gente toma uma cerveja e fala da vida. Mas agora, eu tou trabalhando, irmão.
Anacleto fitou Scanoni com um olhar de admiração e soltou:
- Porra! Tu se garante mesmo, visse? E tá certo. Vou direto ao assunto. – tomou um gole de cerveja e prosseguiu com a voz mais baixa – É o seguinte: semana passada, eu vi Capitão Virgulino lá na fazenda. Ele ia se encontrar com meu patrão e mais uns fazendeiros. Esses aí tavam querendo contratar Capitão pra matar os cabras que tavam roubando gado. Na verdade, tem um monte de quadrilha fazendo isso por aqui. Aí teve uma reunião entre eles. Depois fiquei sabendo que tinham matado os meninos.
- Capitão Virgulino? Que porra é essa? Ressuscita-ram Lampião?
- Oxe, cabra! Tu não sabe quem é Capitão Virgulino não? Na verdade ele não é capitão de porra nenhuma, aque-le puto. Era sargento da PM quando foi expulso da polícia, acho que por tentativa de homicídio. Depois juntou uns pis-toleiros daqui e fez um grupo de extermínio. Dizem que tem gente da polícia no meio também. Começou matando uns traficantes pebas que tinham sobrado da Mandacaru e co-meçaram a assaltar nas cidades daqui. Hoje em dia, eles agem mais no sul do Ceará, mas de vez em quando apare-cem por aqui pra tocar o terror.
Scanoni ficou ainda mais preocupado. Tinha no seu encalço uma milícia. E com uma vida de deslocamentos constantes pelos cafundós do Sertão, isso não era nada bom. Principalmente porque fora criado e forjado em um ambien-te urbano, que embora fosse muito mais violento, era o seu ambiente e isso lhe valia também para a vida profissional.
- Quem eram os outros fazendeiros?
- Anota aí. Mas o maior mesmo é seu Teófilo.
Scanoni anotou quatro nomes. Depois, agradeceu, tomou os contatos e se despediu de Anacleto. Voltou à Sec-cional para o expediente vespertino. Quando chegou, foi comunicado de uma convocação por parte do seu tenente. Dirigiu-se ao gabinete e ao abrir, viu de costas aquela cabe-leira cacheada da qual adorava o cheiro e se animou.
- Oxe. Já? – Perguntou ao superior?
- Recebeu alta hoje de manhã. Eu disse que ela podia ficar em casa, mas é a Sofia, né? Sabia que o apelido dela é cavalo-do-cão?
- Cavalo-do-cão, uma cebola! Égua-do-cão!
Todos riram com a pilhéria feminista de Sofia. Sca-noni se aproximou e lhe acariciou os cabelos, perguntando se tudo estava de fato bem. Ela respondeu afirmativamente, soltando um sorriso largo.
- Bom. Vamo ao trabalho. Novidades sobre o atenta-do de vocês. O cara que você matou – Scanoni não apreciava nem um pouco essa frase – era um soldado da PM. Já ouviu falar no Capitão Virgulino, Scanoni?
- Até a hora do almoço, só no que arrancaram a ca-beça lá em Angicos. Mas agora já sei do que se trata.
- É? Pois é. O soldado Patrício Vieira trabalhava pra ele. Segundo meu contato lá na PM, o serviço reservado já tava pra pegar o safado porque sabia que ele tava envolvido com o grupo de extermínio.
O tenente Germano olhou os dois e disse:
- Esse bando do Virgulino é foda. De vez em quando volta a aparecer por aqui pra perturbar o sossego do pesso-al de homicídios. Vocês vão ter que tomar muito cuidado. Ainda não dá pra saber por quê vocês foram atacados. Pode ser até assalto mesmo. Mas...
- Porra nenhuma! – Falou seriamente, Scanoni – Tem a ver com o caso de Parnamirim. Tou com uma infor-mação. Esse cara tá atrás é da gente. E eu acho que sei por quê.
Sofia e Germano olharam Scanoni com alguma ex-pectativa. Ele continuou:
- Há uns dias esse desgraçado se reuniu com uns fa-zendeiros daqui, na fazenda de um tal de Teófilo. Meu in-formante disse que foi pra tratar de derrubar os ladrões de gado do Sertão Central. Acho que os fazendeiros contrata-ram a milícia.
- Milícia? Que porra é essa? Tu tá numa guerra civil? – Perguntou debochado o tenente – A gente chama de ban-do. Como é o nome do fazendeiro?
- Teófilo Gonzaga.
- Porra! Aquele corno velho! – Replicou Sofia.
- Tem certeza disso? Esse cara é poderoso, ligado a politico. Quem é esse informante?
- Um cara chamado Anacleto Correia. Tava traba-lhando pra esse fazendeiro até semana passada. Viu o tal Virgulino lá. E os fazendeiros.
- Bom. Tem mais pra vocês então. A moto do atenta-do tava no CNPJ da fazenda dele. De qualquer forma, vocês precisam de mais. Vão lá atrás do velho. Só que agora vocês só andam de comboio com muita gente armada dentro. Pera aí.
Germano tomou o telefone e chamou três dos seus outros subordinados.
Dois homens controlavam a porteira do caminho principal da Fazenda Boi Branco. Scanoni se identificou e um deles pegou um rádio e falou alguma coisa em seguida. Perguntaram do que se tratava a visita.
- Assunto da polícia.
O segurança voltou a falar no rádio e se dirigiu a Scanoni.
- Espera um minutinho aí. Visse, boy?
Depois de quase cinco, o homem, sem ter voltado a falar no rádio, abriu o portão e deixou as duas viaturas en-trarem. Seguiram pela terra batida, margeada por um mato ralo e seco onde se erguiam alguns mandacarus vistosos. Não parecia haver bois ali. Scanoni olhou o céu num soslaio rápido e o notou nebuloso. Até nuvens cinzentas se forma-vam. Um pouco depois, percebeu algumas gotinhas no para-brisa. E ele já tinha tempo de vida sertaneja o suficiente pa-ra achar uma chuvinha de verão quase um milagre.
Avistaram a casa de estilo meio modernoso, no alto de uma elevação discreta do terreno. No edifício, uma gran-de vidraça parecia dar fim ao terraço e início à sala. Depois entraram numa estrada asfaltada margeada agora por um jardim verdíssimo. Scanoni se perguntou de onde vinha aquela água.
- Eita! Ó só que verdinha. – falou Sofia que também tinha a atenção chamada pela grama – Deve ter um poço fu-deroso dentro dessa fazenda. Desceram do carro e à porta estava um homem de uns vinte e poucos anos com a cara branca e lisa de um barbear rente. Manteve-se encarando Scanoni até os investigadores se aproximarem.
- O que é que vocês querem com vovô? – O rapaz perguntou ríspido.
Scanoni percebeu na voz anasalada, um sotaque da capital do estado ao norte e retrucou com desdém, mal des-viando o olhar da piscina na lateral direita do imóvel:
- E quem porra quer saber?
O homenzinho fitou Scanoni com uma careta em-bravecida. O agente percebeu a insolência, formou uma car-ranca das mais resolutas e devolveu a encarada.
- Mas olha só! Essa daí eu sei quem é. Quem é tu, boy? Eu sou advogado, visse?
- Grande merda! Mas eu não perguntei isso.
Sofia gargalhou e completou:
- Grande merda ser advogado.
A expressão do almofadinha de Fortaleza mudou. Ele encarou Sofia e esbravejou.
- Fica na tua, sapatão! Vou arranjar um jegue pra tu deixar de ir atrás de mulher, visse?
Embora já estivesse a ponto de matar – e aí ele não vislumbrava nenhum desconforto futuro – o próximo que o chamasse de boy, o desrespeito por parte de um palhaço como aqueles era relevável. Mas ofender e, mesmo que ape-nas metaforicamente, ameaçar Sofia era uma boa razão pra se tornar a vítima de um homicídio perpetrado por Scanoni. Ele cerrou o punho, como o primeiro passo do processo que acabaria com a mão bem nas fuças do cidadão pedante e mal-educado, se não fosse o soco que a própria égua-do-cão desferiu no rapaz. Em seguida, ela torceu o braço do agres-sor e se posicionou para algemá-lo. Scanoni notou a aproxi-mação de capangas, o que fez os três investigadores antes sentados calmamente dentro carro, saírem com arma em punho.
- Netinho! – uma voz feminina aflita – o que é isso? Pelo amor de Deus.
Saiu pela porta uma moça bonita, com um rosto ainda adolescente. Todos cessaram a sua parte na refrega, exceto Sofia que já destravava a algema.
- O que tá acontecendo aqui? – A voz grave vinha de um velho gordo com um chapéu de vaqueiro – vamo paran-do com isso aí. Solte meu neto, moça!
- Ele tá preso, seu Teófilo. Injúria, ameaça e desacato a autoridade constituída.
O velho se aproximou e olhou Scanoni. Esse se deleitava como expectador e sequer percebia a tensão no ambiente, provocada por seis ou sete pessoas armadas e dispostas de alguma forma, ao litígio violento.
- Me solta, sua puta! – Gritou Netinho, rebatendo-se que nem boi brabo em rodeio.
- Teófilo Neto! Respeite a moça, rapaz!
- Sofia. – Scanoni se aproximou e falou-lhe ao pé do ouvido – Calma. Solta ele.
- Solto nada! E se ele se mexer mais, o braço quebra.
- Calma! Solta pelo menos o braço dele. Deixa ele al-gemado.
Sofia olhou Scanoni e liberou o braço do almofadi-nha. Esse em ira quase descontrolável, voltou a ofendê-la.
- Sapatão! Ainda vou atrás de você, sua filha de uma égua.
- Teófilo! Cala a boca, seu bosta! – Ressoou a voz an-ciã, também irada. – Se desculpe com a moça! Ligeiro!
Netinho encarou vovô com lágrimas nos olhos. A humilhação de um pedido de desculpas era intolerável. Mas, como o medo que tinha do avó lhe atingia diretamente os intestinos, ele aquiesceu. Pediu as escusas sem nem olhar Sofia.
- Sem problemas, Netinho. Desculpa ter quebrado seu nariz também. – Falou a moça, com uma doçura que ca-tivou o velho – Deixe eu tirar essa pulseira de você, deixe.
Depois dos ânimos arrefecidos, Scanoni se identifi-cou e a Sofia. Comunicou a Teófilo que precisava lhe fazer perguntas.
- Tudo bem. Vamo entrando. Lenira – chamou a mo-cinha bonita, que atendeu prontamente.
- Diga, voinho!
- Me faça um favor, minha filha. Peça ao povo lá na cozinha pra levar um café pra nós na sala.
- Tá, Vovô.
Entraram e se sentaram em um sofá novo onde se encostavam almofadas gordas. Scanoni, como era costume, foi direto:
- Seu Teófilo, a polícia tem uma informação de que o senhor mais alguns fazendeiros contrataram o bando de Capitão Virgulino pra ir atrás do pessoal que tava roubando boi aqui pelo Sertão Central. Três rapazes foram encontra-dos mortos na Zona Rural de Parnamirim no início dessa semana. Há dois dias, os dois policiais que estão investigan-do o triplo homicídio, eu, Ivo Scanoni e ela, Sofia Alcântara sofreram um atentado na 232. O autor do atentado, reco-nhecidamente homem do bando de Capitão Virgulino, foi morto na ocasião, e a motocicleta usada nessa tentativa é de propriedade da sua fazenda. O que o senhor diz disso tudo.
O velho bufão encarou Scanoni com desdém. Sorriu de leve e ajeitou o chapéu de vaqueiro. Uma moça de uni-forme entrou na sala trazendo o café antes requisitado.
- Sirva a gente, Laudecina.
Encheram-se três xícaras pequenas. Teófilo pegou a sua e a levou a boca. Depois do gole, continuou a olhar Sca-noni. Aí perguntou:
- Qual era a idade desses meninos que morreram?
- Uns vinte e poucos. – Respondeu Sofia
-Sei. Meu neto tem vinte e quatro. Formou-se advo-gado e nunca roubou um boi. E tá vivo.
Um silêncio se quedou na sala. Scanoni não fez a in-terpretação correta do que Teófilo queria dizer e por isso, depois de esperar alguns segundos que o fazendeiro conti-nuasse, falou:
- E quem quer saber da vida do seu neto? Pedi pro senhor dizer o que acha do que eu falei. Vou ser mais claro. Eu estou sugerindo que o senhor está implicado nesse triplo homicídio. A suspeita é de mandante. E os indícios disso não são fracos. Pedir pro senhor falar é o que se chama de con-traditório.
Teófilo olhou Scanoni mantendo o desdém. Tomou mais um gole do café e falou:
- Meu filho. Ivo, né? Se você me perguntasse por te-lefone eu já tinha dito isso tudo aí que você falou. Tinha uns cabras roubando gado por aqui. Nem roubaram gado meu, mas tavam roubando nas fazendas da região. A gente cha-mou o Capitão Virgulino; sabia que ele nunca chegou a capi-tão mesmo, aquele bosta? Pra botar o bando dele pra prote-ger a nossa propriedade. Se nisso, mataram esses três, paci-ência. Mas era pra fazer o que? Deixar a gente perder mais boi?
Scanoni não soube replicar. Esperava negativas ou pelo menos evasivas. O fazendeiro continuou:
- E essa moto aí, é isso mesmo. A gente contratou um serviço de uma empresa de Segurança Privada e forne-ceu uns materiais pra eles fazerem o trabalho. Assinou até contrato. Só não me venha com essa história que eu mandei mantar os ladrões. Nem que fui eu que mandei matar vocês. Nunca tinha nem visto vocês na vida. Isso é com Virgulino e não com a gente, gente honesta que produz, cria emprego.
- Empresa de segurança privada? O bando desse Virgulino é um grupo de extermínio. – Insistiu Scanoni.
- Com tanto que não extermine ninguém do meu la-do, que que eu posso fazer? Vejam bem, vocês tão recla-mando porque uns safados morreram? Se isso foi negócio de Virgulino mesmo, vocês deviam é agradecer a ele. Eles não mataram ninguém de bem.
Sofia e Scanoni ficaram calados. Entretanto os cére-bros iam em direções completamente diferentes. Sobre o dela, os pensamentos era de satisfação. O caso tinha sido es-clarecido. Bastava passar as confirmações dadas por Teófilo Gonzaga ao tenente Germano, que as juntaria aos outros in-dícios para prosseguir o inquérito. O ponto crítico era a au-toria do triplo homicídio, ou quem tinha disparado os res-pectivos gatilhos. Com esse problema, o inquérito não pode-ria ser fechado. Mas havia razão suficiente para se pedir um alargamento do prazo. Os indícios técnicos do caso, que sai-riam no decorrer dos próximos dias, poderiam ajudar. Sofia ia pensando assim, mas Scanoni estava irritado. Queria ter prendido Teófilo. Mas como? Se nem um mandado de prisão existia. O problema é que isso não o confortava.
Foram embora de volta à Seccional e passaram o resto do expediente organizando um relatório. Acabaram o trabalho em tempo, largaram por volta das dezoito e foram às suas casas. Lá jantaram normalmente, distraíram-se com alguma coisa e dormiram.
Scanoni carregava o boi nas costas pelo terreno seco e sob um sol incandescente. No horizonte, outro boi voador se aproximava soltando projéteis de bosta. Ele tirou o bacamarte do bolso e disparou. A arma por sua vez, engasgou. O boi se aproximou calmamente, mostrou-lhe a língua e começou a gargalhar. Scanoni acordou suado.
Quando Scanoni voltou ao trabalho, na manhã se-guinte, deteve-se a avaliar os relatórios de outras investiga-ções de que tinha participado. Da avaliação, constatou que o caso de Parnamirim tinha sido o mais complicado. Almoçou com Sofia, sem muita conversa sobre trabalho. No expedien-te vespertino, reuniram-se com o superior. Depois de algu-mas conformações sobre outros assuntos relacionados ao trabalho, chegaram ao caso de Parnamirim. Germano foi fa-lando:
- Eu pedi a prisão de todo mundo, pelo menos os de quem a gente já tem o nome. Mas acho que ninguém vai ser preso. E se alguém for, vai acabar não passando muito tem-po. Dos quatro fazendeiros, dois já são muito velhos. Os ou-tros dois ainda vai. Mas como não tem flagrante e no final de tudo eles mandaram matar gente que tava roubando na propriedade deles, se o juiz aceitar a representação, um ad-vogado bom consegue um habeas corpus por causa de toda aquela merda. Sobre o dono da CB, a gente não consegue li-gar ele aos homicídios, só à ameaça ao outro irmão e isso não dá cadeia e isso se a moto não for roubada. Sobre Virgu-lino, esse já tem dois mandados de prisão em Pernambuco e dez no Ceará. Vai ser só mais um mandado. E sobre seu Teó-filo, esse é muito velho mesmo. Tem mais de oitenta. Duvido o juiz daqui, que é um bosta metido a político, mande pren-der ele. O atenuante da idade aí é muito forte. Não duvido que a instrução vá correndo normalmente, mas daqui pro julgamento, Teófilo Gonzaga vai acabar é morrendo de velho mesmo. E sobre os pistoleiros que cometeram os homicídios, a gente ainda não tem informação. A esperança é alguém em algum lugar desse Sertão grande e quente pra caralho prender um dos elementos do bando do Virgulino e o canalha em questão souber das coisas e entregar todo mundo com algum tipo de prova. Mas essa esperança eu não tenho mais faz tempo.
Scanoni ouvia tudo atentamente e a cada palavra de Germano, aumentava uma estranha queimação que ia do esôfago ao estômago. Já exibia um semblante agoniado, o que foi percebido pelo seu superior.
- Que cara de cu é essa, Scanoni?
O agente balançou a cabeça e começou a se mexer na cadeira sobre que sentava com um gestual de desconfor-to. Olhou o chefe e falou:
- A gente quase que morre nessa merda. Uma velhi-nha humilde perdeu três netos. E não vai um preso no final de tudo.
Germano Münch se ajeitou na cadeira, olhou Scano-ni duramente e se viu num passado não tão distante. Assim falou:
- Você fez o seu trabalho. Sofia também fez o dela. E eu também fiz o meu.
- Foi pouco.
- Não fala merda! O trabalho da polícia não é fazer justiça. É fazer uma investigação e terminar o inquérito. O resto não é com a gente. – Respirou e continuou – É por isso que vocês tão de parabéns. E isso é o máximo que eu posso dar a vocês. Quer dizer, posso dar o resto da tarde de folga a também.
Sofia e Scanoni se levantaram e se despediram do chefe. A moça resolveu amenizar a frustração do colega e disse:
- Vamo comemorar, né? É o que ele falou mesmo. A gente fez o trabalho da gente. E eu acho que foi muito bem feito. A gente merece uma comemoração.
Scanoni um tanto irritado olhou a parceira e perce-beu suas expressões satisfeitas. A frustração foi dirimida e ele concordou com a comemoração, embora, intimamente, ainda duvidasse muito do mérito.
- Eu vou pra casa, faço umas coisinhas pra gente comer e tu providencia umas cervejas. Ah e cadê a trouxinha de dona Deolinda? Já fumou tudo?
- Não! Eu não fumo maconha. Só muito de vez em quando.
- Hum. Então leva lá pra casa também. Em duas ho-ras. Tá bem?
Scanoni olhou o relógio e respondeu:
- Massa.
Duas horas depois, Scanoni chegava com várias gar-rafas de cerveja. Sofia preparara uma saladinha de tomate e queijo de cabra e uma carne de sol acebolada. Começaram a comemorar. Conversaram sobre muita coisa: justiça, Sertão, Recife. Contaram-se algumas reminiscências sobre e si e so-bre conhecidos. Sofia era mais faladora no início, mas depois de alguns tragos de álcool e éter, escolheu só ouvir Scanoni. Tal decisão acabou propiciando uma externalidade: uma paixão incontrolável que crescia progressivamente. Depois de alguma amenidade que provocou risos em ambos, Sofia encarou Scanoni, prendendo-o com os olhos. Ele reagiu de alguma forma desentendida. A moça então perguntou, com olhos fixos e agudos:
- Tu é doido pra me comer, né?
Scanoni entrou numa taquicardia frenética, mas respondeu de imediato.
- Doido não. Obsessivo.
Depois do derradeiro diálogo, agarraram-se e só se soltaram depois de muitas horas. Então dormiram. No outro dia, depois de acordados e ainda na cama de Sofia, essa fa-lou:
- Foi bom, né? Sensacional! – falou Sofia com uma cara ditosa.
Scanoni concordou.
- Mas tu sabe que a gente nunca mais vai fazer isso, né? Eu sou comprometida. – Falou a moça.
Scanoni confirmou.
Continuaram a parceria na polícia por mais algumas semanas até Sofia ir-se embora para Petrolina. Viram-se ou-tras vezes depois e mantiveram a camaradagem de sempre, sem nenhum problema.
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Zodíaco e o policial realista: a definição de um novo subgênero das narrativas policiais
Já tinha visto Zodíaco uma vez ainda em 2007, e embora não tenha desgostado, não era nada iniciado na mitologia da história relatada para considerá-lo o melhor filme policial da existência. Ainda assim, saí com alguma sensação estranha, perguntando-me o que o filme queria dizer. À primeira vista, realmente o filme é inconcluso e não acontece muita coisa do que se espera de um policial. Daí, segui minha vida normalmente e provavelmente não ia ter contato com o filme outra vez. Entretanto, pra minha sorte, perto do final de 2009 estava eu numa situação meio involuntária de marasmo e ócio e o Cinemax resolveu passar Zodíaco de David Fincher pelo menos a cada três dias durante uns dois meses em horários diversos. Devo ter visto todas as vezes, no mínimo umas dez, quase sempre depois de o filme ter começado. A minha consideração não se deu porque o filme era violento ou caricato como “Seven” (mesmo diretor e certamente um bom filme) e muito menos porque a trama era tão bem feita e bisonha quanto à de “O código da Vinci” (de algum diretor e certamente uma porcaria). Considero Zodíaco uma aula de como se fazer cinema (direção de arte, fotografia, trilha sonora e finalmente direção geral) e uma introdução inteligentíssima ao estudo dos subgêneros da narrativa policial, ficcionais ou não. O filme se baseia numa história real e sequer cogita mudar os nomes dos personagens dela: vítimas, policiais e suspeitos. O efeito disso, somado a uma caracterização de época formidável, é arrebatador. Baseou-se também no livro de Robert Graysmith de mesmo título. Esse é um dos três protagonistas e é sob o ponto de vista dele que o enredo é contado. O meu problema aqui nesse artigo que segue é apresentar a introdução de que falei acima.
Primeiro vamos aos eventos reais. Uma série de homicídios ocorridos em São Francisco e outras cidades próximas do sul da Califórnia entre o final da década de 60 e início da de 70, cometidos por um cidadão indiscutivelmente muito psicótico que enviava cartas cifradas à polícia e a veículos de impressa e que resolveu se dar a alcunha de Zodíaco. As investigações levaram a uma infinidade de suspeitos, porém ninguém nunca foi condenado pelo caso. Um livro-reportagem foi escrito e virou best seller no início da década de 80. Em 2007, David Fincher lançou Zodíaco no cinema. Alguém que assistir ao filme desinformado sobre a história, muito provavelmente achará que é uma ficção. Há muitos casos reais de homicidas seriais nos Estados Unidos, mas certamente o Caso Zodíaco, a se tomar pelos crimes (impressionantes apenas na torpeza, de fato), pelo impressionismo que o psicopata usava para se apresentar (a escolha de uma alcunha, as cartas cifradas, o uso de símbolos na vestimenta – como relataram alguns sobreviventes – citações a um filme cujo protagonista é um caçador de gente e por aí vai) e pela mitologia que se surgiu depois é um dos que mais se parece com uma história saída da cabeça de um autor bem imaginativo de narrativas policiais. Considero que a sacada do diretor em escolher fazer um filme sobre essa história passa por alguma interpretação desse tipo. Mas vamos ao filme. Zodíaco começa num 4 de julho de 69 com a cena do segundo ataque, no qual, em comunicação posterior à polícia o homicida se apresenta e confessa um outro ataque do ano anterior, dando detalhes apenas conhecidos pela polícia. A partir de então Fincher vai pôr em cena os três protagonistas. O primeiro, Paul Avery (Robert Downey Jr) é o editor da seção policial do San Francisco Chronicle. O segundo, Robert Graysmith – o escritor real do best seller – (Jake Gyllenhaal ), é um cartunista do mesmo jornal que se interessa com alguma obsessão indevida pelo caso e o terceiro, David Toschi (Mark Rufalo), investigador de homicídios da Polícia de São Francisco. Isso tudo foi estática, vamos à cinemática. Os dois primeiros funcionam como representantes de dois subgêneros das narrativas policiais: Avery, da crônica policial, cuja versão ficcional é a narrativa de crime. Dedica-se ao caso para produzir notícias e não propriamente para resolvê-lo; Já Graysmth é um representante do subgênero clássico, whodunit ou do detetive consultor, guardadas as devidas diferenças em relação ao seu protótipo e criador do ofício, Sherlock Holmes. Empreende uma investigação amadora (no sentido mais exato de não-profissional) tentando desvendar um mistério perfeito. O terceiro, Toschi, representa um subgênero não muito propalado e talvez nem sequer definido apropriadamente, que é o policial realista. A investigação do caso e a tentativa de levar o criminoso à justiça não são um interesse em vender algo ou a tentativa de desvendar um mistério. São apenas atribuições normais do seu trabalho. Só como suplemento, Toschi está realmente interessado em levar à justiça um homicida que agiu numa área sob a sua jurisdição e por isso está fortemente preocupado com a produção de provas que possibilitem o caminhar do processo judicial pertinente. Nesse ponto, precisamos de um adendo. Enquanto a lista de obras e autores (de cinema, de literatura ou de ambos) dos dois primeiros subgêneros é extensa e pouco discutível, proponho uma aqui para o terceiro, curta e extremamente discutível: na literatura os romances e contos com o Comissário Salvo Montalbano de Andrea Camillieri, Garcia Roza com o Delegado Espinosa e de alguma forma o policial nórdico (que eu chamo por minha pró-pria conta de gris, como se fosse a mistura do noir com o branco da neve ártica). Na televisão diria que a série True Detective representa o subgênero. E já que tudo precisa de um pai fun-dador, o Comissário Maigret de Simenon pode ser o pai de tudo.
Para quem conhece essa lista, as diferenças entre essas obras são muito grandes, mas o meu ponto aqui é que todas elas tentam jogar com alguma verossimilhança entre a ficção que apresentam e a realidade do trabalho das instituições policiais reais e dos homens e mulheres que as fazem. Essa seria a definição primária do que entendo como policial realista. Mas voltemos ao filme.
O enredo fundamental é a caçada ao Zodíaco empreendida por esse três personagens e as interações (bilaterais) consequentes disso entre eles três. E daí, eis a dinâmica. É nessas interações que a genialidade de Fincher em trabalhar personagens simbólicos e representativos de uma série de contextos explode ao ponto de os seus personagens se tornarem os próprios arquétipos mais consistentes daquilo que supostamente representavam antes. Talvez em Zodíaco, não alcance essa genialidade sobre os dois primeiro símbolos – o cronista policial e o detetive consultor – entretanto, tal como consegue em a Rede Social (filme também sobre uma história real) chega à perfeição com David Toschi. Sobre as interações de que se falou acima, apresentarei trechos fundamentais e alguns dos diálogos da mesma estirpe que elucidarão o problema-foco dessa resenha.
Por volta do início do último terço do filme (1h 47 min) Graysmith, prestes a entrar de vez na sua investigação vai à casa de um Avery envelhecido, alcóolatra, drogado e em franca decadência profissional, na intenção de propor que um livro deveria ser escrito. O desdém do jornalista (nesse ponto demitido há muito tempo do Chronicle) já se inicia na primeira resposta, quando concorda que alguém deveria escrever um livro, mas pergunta, sobre o quê? Graysmith explica o seu plano de um livro sobre o Caso Zodíaco. Avery se recusa dizendo algo como ”não é mais notícia. Trabalhamos com atualidades”. É o cronista policial comunicando ao detetive consultor que o seu papel não é desvendar mistérios. Recomendo ao leitor que veja a decepção que se queda sobre Graysmith, num dos pontos altos de Gyllenhaall na atuação que deve ser a melhor da sua carreira. Noutro trecho, anterior ao primeiro, Avery (xxxx) publica uma matéria sobre um homicídio supostamente cometido pelo Zodíaco, numa cidade do norte da Califórnia, já próxima de Los Angeles. Toschi então vai a Riverside (a cidade), mas ao que pareceu, as suposições de Avery não tinham nenhum fundamento e pior, atrapalhariam as investigações das polícias no sul da Califórnia. Nesse ponto do filme, Toschi e Avery se desentendem e acabam com quaisquer possibilidades de cooperação sobre o caso, o que antes do evento era a tônica da relação entre os dois.
Mas o grande debate do filme passa a se dar entre o detetive consultor e o policial realista. Antes de começar, peço ao leitor que imagine um debate hipotético entre Sherlock e o inspetor Lestrade da Scotland Yard e o mantenha em mente. Depois que o compare ao debate entre Graysmith e Toschi que apresentarei então. O primeiro encontro entre os dois (xxxx) se dá depois de a justiça negar a Toschi a prisão de um suspeito de ser o Zodíaco por insuficiências de provas e acontece na sala de espera do cinema em que ambos os personagens assistem a uma seção de Dirty Harry. Para quem não conhece, o filme é um hard-boiled de 71, em quê o assassino manda cartas cifradas com chantagens à polícia e se dá o nome de Scorpio. Harry Callaghan (Clint Eastwood) é o policial truculento responsável por caçar o sujeito. A metalinguagem é utilizada perfeitamente aí, mas isso não é assunto urgente. Toschi sai da seção incomodado e Graysmith o segue. Esse se aproxima com a feição angustiada que exibe durante quase todo o filme e diz a Toschi algo como “o assassino morre com um tiro no peito”. Toschi, que nunca tinha visto Graysmith na vida, responde “nem precisou de julgamento, não foi?” Aqui fica claro qual o papel do policial realista definido por Fincher. O segundo encontro entre os personagens (xxxx) aparece depois de um corte de dois anos (o tempo diegético da obra se estende por quase vinte anos), e é posterior ao último diálogo entre Graysmith e Avery. O nosso detetive consultor (que diferentemente de Sherlock, nunca foi consultado pela polícia) vai à busca de Toschi na esperança de que o Caso Zodíaco se reavive. Toschi, que devidamente não se lembrou do primeiro encontro entre os dois, é no início desdenhoso e tal como Avery, alerta Graysmith de que o caso não está mais na agenda da polícia dizendo algo como “já faz mais de quatro anos que ele não aparece. Nesse tempo mais de 200 pessoas foram assassinadas em São Francisco. Eu tenho trabalho a fazer”. O que parece acontecer, na verdade, decorre das circunstâncias incomuns sob que a série de homicídios ocorre. Os ataques se deram em várias cidades, cada uma com uma polícia diferente, que por uma miríade de problemas associados ao trabalho policial não conseguiram cooperar. Coisas como uma polícia ter um suspeito, contra o qual os indícios mais robustos estavam com outra. Como também o fato de, aparentemente, as vítimas terem sido escolhidas quase que aleatoriamente. Há o de São Francisco, em que o Zodíaco mata um taxista. Os outros quatro ataques oficialmente atribuídos ao psicopata foram a casais em áreas ermas. Nenhuma das vítimas nunca teve qualquer relação com outra, exceto, evidentemente, o algoz. Como o filme e mesmo o livro de Graysmith relatam a confusão foi enorme e isso naturalmente acabou atrapalhando o trabalho empreendido pelas polícias e pela justiça da Califórnia. Voltando ao diálogo, Toschi ainda tem uma fagulha de esperança de encerrar o seu caso, quando Graysmith se mostra realmente interessado. Por isso ele tenta ajudá-lo com a indicação dos policiais responsáveis pelas investigações nas outras cidades . A partir disso, o detetive consultor inicia efetivamente seu trabalho de investigação. Como não é profissional, ele tende a se fundamentar muito mais em elementos circunstanciais e mesmo pitorescos do caso do que na produção das provas que levariam o Zodíaco à justiça. E é nesse papel que a feição angustiada do ator se torna desesperada. O personagem ainda vai deteriorando a sua vida pessoal, numa obsessão bem típica de detetives ficcionais. Só que sem os atributos inumanos do análogo de Bakery Street B, o fracasso do seu trabalho soa retumbante. Até o ponto em que ele chega, num lance de sorte, ao nome do suspeito pre-ferido de David Toschi: Artur Leigh Alley. Cruzando informações do próprio arquivo e das polí-cias sobre o caso, Graysmith descobre a data de nascimento do suspeito. Ao se lembrar de um telefonema feito dez anos antes a um apresentador de TV, em que um suposto Zodíaco revela que é o dia do seu aniversário, ele fecha o arco investigativo típico do whodunit. Desesperado, vai de madrugada à casa de Toschi, que já tinha sido retirado da investigação do caso. A sequência de diálogos que se segue entre os dois é monumental. De um lado Graysmith apresentando um resumo da investigação. Elementos circunstanciais e intuitivos pululam. Toschi rebate quase todos os argumentos pedindo provas técnicas e efetivas – impressões digitais, grafologia, testemunhas oculares, etc. Num ponto, o policial revela uma carta que recebera do suspeito. Graysmith o interpela dizendo “foi datilografada”. Toschi replica “isso não é crime, Robert”. A conversa continua num bar onde tomam café da manhã e Graysmith consegue apresentar um relato mais consistente e convincente com a conclusão de que Artur Leigh Alley era o Zodíaco. Toschi, estupefato, aceita a conclusão, mas insiste por provas. Graysmith lhe roga:
- Tente pensar como se não fosse policial.
- Mas eu sou policial – Toschi responde. Então respira, encara Graysmith e desfecha serenamente –Acabe o livro.
Dave Toschi então passa a figurar como o protótipo do policial realista, subgênero, como disse, pouquíssimo propalado, talvez justamente porque lhe falta uma definição que o tome como tal. Deve-se pensar fundamentalmente, que embora Dave Toschi seja um personagem real, o de Fincher passa pelo seu filtro artístico e se torna naturalmente ficcional. E se Graysmith é o protótipo do irrealista detetive consultor ao menos nas suas intenções obsessivas, é Dave Toschi que o faz cair na real. Não é o mote aqui, mas se há um conflito entre esses dois símbolos, ele termina com a vitória de Avery, ou do cronista policial. O livro que Graysmith publica é um típico documentário de crime que vendeu aos borbotões. Numa perspectiva mais ampla, entretanto, a vitória acaba sendo do Zodíaco, embora seja possível interpretar que o mistério foi desvendado por Graysmith (a cena no finalzinho do filme em que o cartunista e Alley se encontram é inquietante) infelizmente o psicopata, cuja inteligência não é (e não havia de fato nenhum motivo pra ser) celebrada, nunca foi preso porque o Estado amarrado no seu próprio realismo não pode fazer justiça. Em Dirty Harry, ele levou um tiro no peito. Se fosse um filme de Sir Doyle, provavelmente tudo teria sido obra de Moriarty, o antípoda de Sherlock, de inteligência também inumana. Entretanto, o que David Fincher acaba dizendo quando enfatiza as problemáticas reais do sistema de justiça para se tornar efetivo não é que o mal sempre vence. Mas sim que às vezes ele é tão torpe que pode vencer. E o papel da justiça é o de trabalhar para que isso não aconteça.
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